quinta-feira, setembro 03, 2009

Regresso ao lar

O tema "família" é sumptuosamente propenso à criatividade ideológica.
Se uns o reinventam como o regresso aos velhos valores, cinzentismo, conservadorismo e outras etiquetas de circunstância política, outros contra-atacam reinventando o argumentário da procriação, prolongamento da espécie, partilha de um espaço comum, educação dos mais jovens, contribuição para a reprodução social e rejuvenescimento da população.
No entanto a família permanece como um local de pertença, parentesco, convivência em comum, partilha de um espaço (ou não), com estados civis distintos, com ou sem filhos.
Nas famílias coabitam pessoas, mais ou menos progressistas, conservadoras, entre outras soluções criativas encontradas para se comungarem afinidades, laços e alargarem responsabilidades (ou não).
Há famílias de todas as espécies.
A velha família tradicional, famílias homossexuais, famílias monoparentais, famílias sem e com filhos, entre outras.
Todas as famílias são perfeitas até ao momento em que os seus elementos mais novos começam a construir um espaço próprio, por vezes em absoluto desacordo com os valores ideológicos dos pais, por vezes em profundo acordo, por vezes tentando encontrar um norte na desorientação em que se encontra a família, enfim tantos os casos quantos os contextos.
Nenhuma família é perfeita, uma vez que a imperfeição é amiga de caminhada das cretinices e inventividades.
À partida o único elemento de convergência em todas as famílias é a necessidade de os seus elementos se adaptarem à vivência em comum, logo cedência de espaço, afinidades, ideias, etc.
Há quem gostasse muito de prolongar a espécie mas sem as maçadas de partilhar um espaço, coabitar ideários, indigestões, humores extravagantes, etc., daí que resolva partilhar o espaço com alguém sempre pronto a ouvir e incapaz de discordar: o animal de estimação de circunstância.
Há histórias rocambolescas e dignas de constar em qualquer cardápio interpessoal: do namorado francês que chega a casa e espera que a comida lhe caia no colo, ao namorado belga que não come para não ter que pagar a conta, até ao namorado que convida para jantar e resolve partilhar a conta, isto após dias de férias reconfortantes à custa da(o) tansa(o) do costume.
Enfim, os contextos e as contradições são tão ilimitadas quantas as (in)capacidades do ser humano se transformar num modernaço no verdadeiro sentido da palavra, com coerência e tudo.
Em muitos lares ocidentais, alguns progressistas, bastante progressistas até, continuam a recrear-se velhas formas de vida em comum. Uns consideram que os rapazes não devem partilhar as tarefas caseiras, outros consideram que as raparigas estão cá para serem servidas, uma vez que a escravatura feminina já acabou. O caixilho é o mesmo educam-se pessoas, cuja noção de família é simples e eficaz: meu caro/minha cara, se alguém tem de cuidar da casa, roupa, filhos, pais, sogros, etc. essa pessoa não sou certamente eu.
Nos dias de hoje podemos viver em família, sós, casados, em união de facto, apenas juntos, apenas porque nos apetece ou outras e mais variantes.
Sinceramente, cheguei à brilhante conclusão que a maior parte dos políticos continuam a olhar para a sociedade com lentes desfocadas, daí que seja muito interessante vermos ideologias tão aptas a defenderem a liberdade individual e a decidirem regulamentar que apenas uma família deverá ser igual perante a lei, enquanto outros tentam regulamentar as formas progressistas e modernaças de se ser família.
Parece-me bastante óbvio que um político deverá defender a sua visão de família, educação, saúde, … é importante que o faça pois os eleitores demarcarão assim a sua escolha.
Contudo, é também importante colocarmos uma questão: a família teve ou não necessidade de se adaptar à realidade dos tempos?
A regulamentação de um país deverá adaptar-se (ou não) às formas de família dos seus habitantes?
Esta pergunta tem como pressuposto duas regras civilizacionais: a liberdade de escolha individual, eu enveredo por um determinado tipo de família, e a igualdade perante a lei, isto é a família a, b, c, d, … tem tantos direitos e deveres como os outros tipos de família.
Ou será que a liberdade individual se circunscreve a um determinado ideário ideológico?

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quarta-feira, novembro 12, 2008

A questão é quem é que manda, apenas isso

Caro João,

Os argumentos “correcção sintáctica”, “imaginação” e “perspicácia” valem o que valem. São apenas pontos de vista. Eu sou insensível à correcção sintáctica, para além de que sou uma pessoa bastante impaciente. Prefiro discutir argumentos e desvalorizo a aparência do seu guarda-roupa. Não desoculte nas minhas palavras a menorização da importância do português, não é disso que se trata. É apenas uma questão de insensibilidade pessoal e de um conhecimento que não me interessa. A minha leitura da sua mensagem pretende esclarecer o seguinte: o meu ponto de vista não é o da “correcção sintáctica”.

A minha presença no “GR” não tem como intuito contribuir para a estabilização da língua portuguesa. A minha presença no “GR” tem como objectivo principal contribuir para a contestação e discussão democrática.

Sou uma fã irremediável de Lewis Carroll e especialmente deste pequeno excerto:

“Não sei o que queres dizer com glória”, disse Alice.
Humpty-Dumpty sorriu, com desprezo. “Claro que não – até que eu te diga. Quero dizer ‘aí tens um belo argumento que te arruma!’”
“Mas ‘glória’ não significa um belo argumento que te arruma”, objectou Alice.
“Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty-Dumpty, em tom de escárnio, “ela significa o que eu decidir que significa – nem mais, nem menos.”
“O problema é”, disse Alice, “se se pode obrigar as palavras a significar tantas coisas diferentes.”
“O problema é”, disse Humpty-Dumpty, “quem é que manda – apenas isso.”**

Concordo com Humpty-Dumpty: o problema é quem é que manda, apenas isso. Imagine a desgraça das desgraças: o meu ponto de vista estabilizar-se como senso comum na sociedade portuguesa, quem é que utilizaria então o argumento de “correcção sintáctica”? Outros actores? Outros pontos de vista?


* - A minha resposta à sua mensagem é pessoal e não deverá ser lida como opinião concertada do “GR”.
** - Lewis Carroll, Through the Looking-Glass, introdução ao Poemário de 2008, Assírio & Alvim.

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segunda-feira, setembro 22, 2008

A carapuça entrou na minha cabeça e não é que serviu?

Segundo a Carlota e, ainda, segundo as boas regras da língua portuguesa:
Não se escreve estado, mas Estado...
Não se escreve o Estado interviu, mas sim o Estado interveio...

Acho muito importante que alguém venha relembrar as regras da língua, eu, como ainda ninguém percebeu, tenho bastante facilidade em cumpri-las.

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