quarta-feira, janeiro 31, 2007

Notas nas margens dos livros

Por mais político que seja o tema do ensaio, um livro de Eduardo Lourenço é, antes de mais, uma singular obra de arte. A forma como ele pega nos assuntos e vai por ali fora, quase divagando, fazendo-nos crer, a determinada altura, que já nada do que nos é proposto tem realmente qualquer tipo de ligação com o objecto do ensaio; as voltas que dá, levando-nos a pensar que está a centrar-se no acessório e a fugir do fulcral; a demonstração que nos faz que também o lateral e o acessório devem ser apreendidos quando se pretende analisar um universo, e a suprema mestria de fazer tudo confluir para a ideia que nos quer transmitir, são particularidades que só estão ao alcance de raras penas.
*[adaptadas]

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Prós e Contras [adenda Vasco Rato]

ARTIGO 142º
Interrupção da gravidez não punível

3. O consentimento é prestado:

b) No caso de a mulher grávida ser menor de 16 anos ou psiquicamente incapaz, respectiva e sucessivamente, conforme os casos, pelo representante legal, por ascendente ou descendente ou, na sua falta, por quaisquer parentes da linha colateral.

4. Se não for possível obter o consentimento nos termos do número anterior e a efectivação da interrupção da gravidez se revestir de urgência, o médico decide em consciência face à situação, socorrendo-se, sempre que possível, do parecer de outro ou outros médicos.

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Prós e Contras: Aborto [adenda Vital Moreira]

Já na parte final do «Prós e Contras», Vital Moreira, após fazer um breve apelo à seriedade, recorreu a uma pequena analogia entre o incesto e o aborto.

Não sou jurista, e Vital Moreira é, indiscutivelmente, um prestigiado Professor de Direito, mas a tentativa de comparação causou-me alguma perplexidade. É que mesmo que o crime de incesto não esteja previsto na lei, com toda a certeza que a cocção sexual, o abuso sexual e a violação o estão. A única forma de praticar incesto fora destas possibilidades será por mútuo consentimento. Como no caso do aborto não antevejo qualquer possibilidade do feto poder consentir seja o que for, a analogia pareceu-me pouco séria. Foi só a mim?

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Investimento

O FJV fala em miséria do investimento, eu falaria antes em miséria de salários.
Contudo, ouvir o ministro da economia aliciar os investidores chineses com este argumento, provocou-me tal indigestão.
Ouvi-o de manhã e, final de tarde, ainda me encontro com uma ligeira, mas deveras estranhíssima, azia.

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Valdemar, um reporter travesso

Valdemar chega à redacção e na sua agenda o tema eleito é a IVG, sai esbaforido da redacção, o entusiasmo salta-lhe pelas narinas, e acomoda-se no Fiat Bravo da estação. Estaciona na avenida da liberdade, num lugar indiscreto e de ferramenta em punho enfrenta o transeunte adverso.
Entrada no ar, genérico, Jarre na China
Valdemar - O que pensa da IVG?
Primeiro transeunte - a IVG? O qu'é isso, pá?
Valdemar de olhar pedagógico e assertivo - então 'tá farto de ouvir falar, é a interrupção voluntária da gravidez.
Primeiro transeunte - ah, o aborto!
Valdemar - sim, pois.
Primeiro transeunte - olha pá - coçando os respectivos - eu cá tou-me borrifando para o assunto - voltando a coçar os respectivos e palitando o ouvido com o mindinho.
Valdemar - Muito obrigado por ter manifestado a sua opinião.
Valdemar dirige-se para uma transeunte.
Valdemar - O que pensa da Interrupção Voluntária da Gravidez?
Primeira transeunte - Da IVG? Acho muito bem. No referendo vote sim, caríssima ouvinte e pra que saibam as mulheres que apoiam o sim passem a dar um beijinho na cara e as que apoiam o Não, essas fascistas, que escarrapachem dois beijos. O Sim passará a ser conhecido como o voto do proletariado, de quem não tem euros para pagar abortos em Espanha. Dê dois beijos cara ouvinte! Ou será um?
Valdemar - Muito obrigado pelo seu contributo, caríssima ouvinte, vamos agora falar com o deputado Gaspar, então deputado Gaspar pela avenida da liberdade a esta hora? seu malandreco.
Deputado Gaspar - Ora bolas, 'tamos em off, caríssimo Valdemar?
Valdemar - Sim, caríssimo deputado, 'tamos em off.
Deputado Gaspar - Olhe, faça de conta que não me viu e deixe-me seguir em paz.
Valdemar - Vá lá deputado, qual é o problema.
Deputado Gaspar - É que quanto à IVG eu não tenho opinião.
Valdemar espantadíssimo com a excelente "cacha" a oportunidade da vida de um repórter que pretende ascender a um posto elevadíssimo, a redacção - Senhor deputado, tem a certeza daquilo que 'tá a dizer?
Deputado Gaspar - Absoluta certeza, certo e tão certo como dois e dois serem cinco.
Valdemar - Muito obrigado, caríssimo deputado. E virando-se para a antena, Bom dia senhores ouvintes, foi mais uma reportagem de rua de Valdemar, o reporter travesso, amanhã aqui voltaremos, algures em Lisboa. Tenha um bom dia e faça o favor de ser infeliz!
Fecho da reportagem, genérico, Jarre na China.

Ilustração: Tragi-comix

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terça-feira, janeiro 30, 2007

Prós e Contras: Aborto

Foto: Kalle Helminen

Ontem fiz o “sacrifício” de assistir ao «Prós e Contras» da RTP1 até às tantas da matina: uma maratona televisiva que acabou por valer a pena. Apesar dos argumentos apresentados serem os habituais – já analisados e dissecados por áreas transdisciplinares de estudo como a Bioética –, é sempre interessante conhecer a opinião que têm sobre o aborto especialistas em matérias tão distintas como o Direito, a Medicina, a Psicologia, a Sociologia, etc; e das pessoas que lidam de alguma forma com os problemas resultantes da prática do aborto.

No programa de ontem, ambas as orientações estiveram [relativamente] bem representadas, mas no cômputo geral, o NÃO saiu-se bastante melhor que o SIM.

Lídia Jorge, Fernanda Câncio, Catarina Furtado e Vasco Rato, foram claros equívocos entre os apoiantes do SIM, e acabaram [presumo, contra vontade] por fazer campanha pelo NÃO. Lídia Jorge e Fernanda Câncio tiveram intervenções desastrosas, evidenciando claras dificuldades em se fazerem entender, e ainda mais em conseguirem justificar uma opção de voto no SIM. O descontrolo emocional que tomou conta de ambas também não ajudou. Já Catarina Furtado e Vasco Rato pareceram, no mínimo, pouco esclarecidos/convencidos. Como Vasco Rato anda [com toda a certeza] a ver muitos sketches dos Gatos Fedorentos, acabou por ser o instigador de um dos momentos mais delirantes da noite, tendo brindado os telespectadores com um sketch, de improviso, que foi aplaudido, entusiasticamente, por Daniel Oliveira.

O restante grupo de apoiantes do SIM esteve bastante bem, com alguns dos seus elementos a apresentarem argumentos consistentes na defesa do SIM. Já a claque que os apoiava teve momentos pouco felizes, não conseguindo evitar soltar, aqui e ali, graçolas, risinhos e gargalhadas, durante e após as intervenções de alguns defensores do NÃO. Acabaram por passar uma mensagem de pouca tolerância e a falta de respeito pelas opiniões diferentes das suas.

O NÃO esteve bem em toda a linha: na defesa da vida, na defesa das mulheres e no respeito pelas opiniões de todos os intervenientes no debate. E também, por não terem tido qualquer pudor em aparecerem ao lado de Fernando Santos, que deu a cara pelo NÃO mais “fundamentalista” que pode existir nesta matéria. Apesar de discordar completamente da opinião do actual treinador do SLB, é inquestionável que a sua avaliação é 100% coerente com os valores que afirmou defender.

Caso curioso neste debate foi o facto de todos os intervenientes, sem qualquer excepção, afirmarem [e reafirmarem] ser contra o aborto e em concordarem que o aborto não é uma “coisa” boa. Se são todos contra o aborto, e se concordam que não é uma “coisa” boa, como é que podem considerar que o aborto livre até às 10 semanas é uma solução razoável e progressista?

Tendo em conta a pergunta que é colocada no referendo, e o tabu sobre a regulação da IVG que ainda hoje teima em persistir, só posso votar NÃO. Simplesmente recuso-me a passar cheques em branco, muito menos a este governo e em matérias desta relevância.


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O Portugal de Vasco Pulido Valente

Hoje, no Canal 1 da RTP, pelas 23:55, [uma hora bastante apropriada, portanto], inicia-se, [se não contarmos com as derrapagens temporais que as todas as grelhas de programação sofrem] o 11º episódio da série de documentários «O Portugal de...». Neste programa, o Portugal será o do cronista-mor da república.

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Lendo os clássicos


"Pedra-de-Toque
(...) Explico-me, senhor. Não gostava do corte da barba de certo cortesão. Replicou que dizia eu que a sua barba estava mal cortada, julgava, ele, que estava bem: é o que se chama o Desmentido Cortês. Se lhe retorquia que estava mal cortada, retorquia por sua vez que esse corte lhe agradava: é o que se chama o Gracejo de Bom Gosto. Se dizia outra vez que estava mal cortada, invalidava meu juízo: é o que se chama a Réplica Grosseira. Se dizia mais uma vez que estava mal cortada, respondia que não dizia a verdade: é o se chama a Admoestação Valente. Se dizia ainda que estava mal cortada, respondia que tinha faltado à verdade: é o que se chama a Resposta Altercadora. E assim até ao Desmentido Condicional e ao Desmentido Directo.

Tiago
E quantas vezes disse que a sua barba estava mal cortada?

Pedra-de-Toque
Não ousei ir além do Desmentido Condicional e não ousou dar-me o Desmentido Directo e foi assim que medimos as nossas espadas e nos separámos.

Tiago
Pode agora citar por ordem os graus do Desmentido?

Pedra-de-Toque
Oh! senhor, querelámo-nos segundo umas regras impressas, assim como há livros relativos às belas maneiras. Vou enumerar-lhe os graus: primeiro, o Desmentido Cortês; segundo, o Gracejo de Bom Gosto; terceiro, a Réplica Grosseira; quarto, a Admoestação Valente; quinto, a Resposta Altercadora; sexto, o Desmentido Directo. Todos estes desmentidos, pode evitá-los, excepto o Desmentido Directo; e ainda assim pode evitar este com um Se. Vi o caso em que sete juízes não podiam arrumar uma querela, mas quando as partes se encontraram, uma delas pensou simplesmente num Se; por exemplo: Se tem dito isto, então eu tenho dito isso, e apertaram a mão e juraram uma amizade fraternal. O Se é o único pacificador; há muitas virtudes num Se."

SHAKESPEARE, William, Como Lhe Aprouver, Porto, ed. Lello & Irmão, sd, pp.182-183
Ilustração

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segunda-feira, janeiro 29, 2007

Dony Permedi - Kiwi!

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A Blogosfera no Feminino [em negação]


Continua a série de entrevista de Pedro Rolo Duarte na Antena1 sobre a blogosfera. No último Domingo a convidada foi Miss Pearls. Tudo aqui [podcast].

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geração espontânea

Nos cinzentos, despidos e inóspitos Aliados, nasceram agora timidamente quatro bancos (ainda não presentes na foto ao lado). No meio da praça deserta lá estão, dois voltados para cima e dois voltados para baixo, mantendo cada um a zua zona de influência bem espaçada, à espera de clientes.

O Rio saberá disto? É que ainda por cima os rebentos são verdes! Qualquer dia ainda vêm abaixo por serem tomados por qualquer erva daninha contaminadora do belo vazio cinzento...

Para já, está assim uma coisa um bocado para o esquisita, pois estão demasiado isolados no meio do vazio, mas pode ser que com o passar do tempo eles se reproduzam, se organizem e deixem a praça mais compostinha.

foto de Carlos Romão (A Cidade Surpreendente)

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Nancy meets Lennon & MacCartney


IV
Marta, minha querida, para onde vais?
de cestinha aconchegada
no teu ventre proeminente
saltaricando feliz
de poça em poça
olha os borlotos das meias, rapariga,
olha os borlotos,
os rapazes vão reparar nos borlotos, rapariga,
és mesmo tontinha,
és uma querida tontinha,
tu e os teus borlotos.

Ó que pena da rapariguinha
que não sabe para onde ir.
Ó que pena da rapariguinha
que não sabe para onde ir.

Toda a tua vida
foste um passarinho
de asa partida,
cantando no bosque
toda a tua vida
tentando ser
o que não és
e cantando no bosque
vá lá passarinho
voa!
vá lá passarinho
voa!

Ó que pena da rapariguinha
que não sabe para onde ir.
Ó que pena da rapariguinha
que não sabe para onde ir.

Por acaso viste a rapariguinha
de flor estilhaçada no cabelo?
Viste como o seu ar prometia?
Viste o seu ventre proeminente?
Uma barriguinha
numa rapariguinha
com meias de borlotos?
uma rapariguinha tonta
cantando sozinha no bosque
com seus borlotos.

Ó que pena da rapariguinha
que não sabe para onde ir.
Ó que pena da rapariguinha
que não sabe para onde ir.

hum hum hum hum hum
hum hum hum hum hum
hum hum hum hum hum
hum hum hum hum hum
hum hum hum hum hum

NancyB, 17 canções para Lennon & MacCartney
Foto

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A inveja nacional

José António Saraiva escreve, no último sábado, nas últimas páginas da revista Tabu uma longuíssima crónica sobre a "inveja" nacional, afinal, segundo JAS, a "inveja" nota-se mais aqui, porque somos pequenos e temos tendência a uma canibalização um tanto ou quanto mais notória.
JAS diz que só se apercebeu disso há alguns anos e para tal dá o exemplo de uma determinada opção editorial em prole de um escritor famoso e o defraudar das expectativas do editor, afinal uma tiragem de 50.000 exemplares de "Vivê-la para Contá-la" de Marquez, foi um grande flop comercial.
JAS explica a razão, é que na altura era best seller "Equador" de Miguel Sousa Tavares e voilà em Portugal não há lugar para dois best sellers.
Estas palavras são tendenciosamente invejosas, pretendo, e assumidamente, arrebatar o lugar de cronista do reino a JAS, para que não restem dúvidas e por isso, apenas por isso, não me parece que a sua argumentação seja verosímil.
Talvez tenham existido outras razões, talvez Garcia Marquez seja um escritor datado, talvez a referida obra seja demasiado extensa, talvez o público português não tenha grande curiosidade sobre biografias e sobre a vida de Garcia Marquez em particular, talvez o livro fosse demasiado caro.
Há autores que são efectivamente datados, e há ainda autores cuja excessiva notoriedade aliada a um determinado estilo, se desgastam muito facilmente, pois rapidamente surgem seguidores aptos a explorar o filão e cuja principal consequência é enfadarem o leitor e, por isso, esvaziarem a fórmula.
Quanto à questão da inveja, e para arrumar de vez com o assunto, diria que ela é apenas um sentimento Universal. Falar sobre o próximo, manifestando inveja, é apenas algo que faz parte do carácter humano desde os primórdios da humanidade. Não é preciso investigar muito, basta reler, presumo que o caríssimo leitor já a tenha lido pelo menos uma vez, a dramaturgia principal de Shakespeare, e perceber qual é o principal sentimento humano que por lá é retratado.
Não percebo é porque é que em Portugal se acredita piamente que só por aqui a inveja é corriqueira, será isto sinónimo de algum mal-estar patriótico?

Ilustração
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domingo, janeiro 28, 2007

No campo dos links...

Foto: James Stillings

... os blogues individuais do Migvic (5 minutos), do Ricardo (Apatia Geral), do Gollum (My precious), da Adriana Freire Nogueira (A Senhora Sócrates), do Jorge Pereira (EavesDropping), e do Carlos (Planeta T-Shirts). O blogue colectivo do Luís Rainha e Jorge Mateus (Zona Fantasma). E agradecemos a recomendação do Corta-Fitas.

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tenho dúvidas


muitas dúvidas
e no meio das dúvidas
algumas respostas
mas neste questionar intrincado
há respostas que me encaminham para novas dúvidas...

Foto
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Tomek Baginski - Fallen Art

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como baralhar as coisas III

«De outra forma poderia fazer sentido: despenalizar, retirar a pena de prisão,... Assim não: é uma mentira na pergunta e é uma mentira na lei que se quer impor aos portugueses.»
[Marcelo, no primeiro vídeo referido no post abaixo.]

Corrijam-me se eu estiver enganada: é suposto respondermos à pergunta que nos é feita, certo?!...

Ora, o que diz Marcelo é qualquer coisa como: em resposta à pergunta eu acho que SIM, mas acho que devemos responder NÃO, porque a formulação da pergunta não vai de encontro ao espírito da lei que pretende ser aprovada.

Isto é baralhar as coisas...

Se a resposta afirmativa à pergunta não valida a proposta de lei, então essa validação há-se ser alguma coisa perto do inconstitucional e será necessário alterá-la em Assembleia – digo eu, que não percebo nada disso! Além disso, se eu acho que a pergunta está mal formulada, então não respondo! – esta parece-me uma justificação razoável de um voto EM BRANCO consciente.


Adaptação livre [muito livre!] do espírito do Marcelo:

- Está a chover?
[Ora, está a chover a potes, mas, dizendo eu que sim, ele vai querer levar o meu guarda-chuva... e eu não quero isso, portanto, para evitar discussões posteriores...]
- Não!
[... ele que se molhe!]


[anteriormente: como baralhar as coisas I e II]
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sábado, janeiro 27, 2007

Referendo no YouTube!

O Professor explica, o Bloco ataca, Marcelo replica e desenvolve.

Fotos via: YouTube

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política inducativa

Foto: Andrzej Dragan

(Proposta de exercício)
Actualizar a figura do judeu de Gil Vicente sob a forma de “um israelita fanático que participa em acções terroristas contra palestinianos”
AULA VIVA 9º ANO. João Augusto da Fonseca e José Augusto da Silva Vieira, Porto Editora

Via: Expresso

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E o quê da alienação?


É com alguma mágoa que me confesso uma alienada, gosto dos pontos nos i's, para que um dia destes, o caríssimo leitor, não me aponte a bandeira da incoerência, mas também gosto de pessoas incoerentes.
Questiona-se: e o quê da alienação?
O meu quê resume-se a falta de compreensão e míngua de faculdade de interpretação.
O cabo adoptivo, o islão, o aborto, o desrespeito por Portugal, a inexistência de brio profissional, o correcto, enfim...
O mundo, é verdade, sempre foi um desassossego.
E o alvoroço reveste-se em palavras, e alguns, desventurados, postularam ousadamente uma interpretação.
E, inflamadamente, o ser humano também se guarnece de pensamento e acção.
Todos nos enganamos, muito, a respeito de credos, bastos.
A humildade é inimiga do conhecimento e da condição humana.
Por isso, perante determinadas questões, nos afogueamos, espezinhamos e aspamos, mutuamente, e tudo isto passa por algum exercício de vaidade, deveras legítimo, afinal todos temos espelhos, pelo menos na alma.
A alienação surge porque não me interessam a maior parte das questões que incendeiam a comunicação, é uma fase, acreditem, também tenho o meu quê de desalento, e de exercício de vaidade, e de interpelação do mundo, e, muitas vezes, de uma forma bastante pesarosa.
Mas não se engane, caríssimo leitor, tudo isto é só porque hoje espertei assim!

Foto
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Descubra as diferenças II

Propaganda política não é só o que a gente acompanha na imprensa, no rádio, na televisão. Ela pode assumir muitas outras formas. Uma viagem para participar de um comício. Uma inauguração de uma obra. Um programa social. Uma campanha de vacinação. Um trecho de um livro didático. Um patrocínio de um evento cultural. Tudo é manipulado pêlos políticos. Tudo é pago por nós. Por um preço alto demais. Entre o que se gasta em propaganda oficial, mais o que se gasta em propaganda camuflada, mais o que se gasta com empreguismo eleitoreiro, mais o que se gasta em corrupção para financiar a propaganda, a política acaba custando mais do que educação e saúde.


Diogo Mainardi, (2004), A Tapas e Pontapés, Crônicas, 4ª edição, Editora Record, Rio de Janeiro.

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sexta-feira, janeiro 26, 2007

Razão, consciência, responsabilidade e liberdade [1]

Foto: Kalle Helminen

Não era difícil de imaginar que blogosfera se tornaria num meio de excelência para os movimentos envolvidos no próximo referendo propalarem as suas crenças. Também não é de estranhar que se tenha transformado num intrincado campo de batalha de [e entre] egos, alter egos e super egos. Como não tenho qualquer interesse em entrar nesta funesta contenda, e como não consigo notar nenhuma diferença qualitativa entre a argumentação do Louçã e do Bispo da Guarda, fui-me limitando [ultimamente] a transcrever e a linkar alguns textos que me pareceram pertinentes para o tema em causa. Hoje descobri neste testemunho do Diogo Almeida – texto que quase poderia subscrever na íntegra –, um comentário “assinado” que me remeteu [via link] para um sítio, onde se pode ler este sentido apelo:

Ajude-nos a corrigir uma enorme injustiça.

A ciência indica-nos de forma clara que num feto não existe vida. Num agregado de células tão primitivo e ainda em formação, o desenvolvimento do cérebro não tem de forma alguma o necessário para ser o de um ser humano.

Não é um bebé, muito menos uma pessoa.

Estamos convictos que este é o pensamento correcto do ponto de vista científico. Quem pense o contrário que tenha a liberdade de agir em contrário, mas por favor dê-nos também esse direito.

Peço-lhe que não permita que nos impeçam de viver em paz com a nossa consciência.

Acreditamos que, enquanto seres humano, temos a obrigação de só ter filhos quando temos boas condições para os criar. Não existindo ainda vida temos que poder pôr termo aos processos químicos que levam à sua criação. Não podemos limitar-nos a ter filhos quando calha.

Por favor ajude-nos a viver bem, a viver em paz e em liberdade e harmonia com o próximo. Só o seu voto SIM nos pode dar aquilo que tão desesperadamente necessitamos: A nossa liberdade de consciência

O justo e certo está na sua mão. VOTE SIM

Crenças são crenças, e se há pessoas que acreditam convictamente que não existe vida num feto humano, estão no seu pleno direito. O que talvez não convenha é, evocar em vão o nome da ciência. Nem sequer me parece necessário conhecer as classificações taxonómicas básicas das ciências biológicas para se concluir que num feto existe vida [caso contrário seria um feto morto]. Porém, plenamente convictos que a ciência fundamenta as suas crenças, avançam para um apelo à consciência de todos aqueles que não pensam como eles [entre os quais me incluo]. Como prova de boa-fé, imagine-se, até conferem a todos aqueles que discordam deles um direito adquirido [a liberdade de continuar a não praticar abortos], desde que os deixem viver em paz com as suas consciências. Evidentemente que eu não tenho nada contra a consciência de ninguém, mas só quem não sabe o que é a consciência é que pode pedir [de ânimo leve] a outrem para abdicar da sua em favor da dele. E quando se trata de consciências, cada um sabe da sua [quando sabe].

[continua…]

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conversas na corte

o duque - Senhora, sabeis da nova?
a duquesa - Da nova, Senhor?
o duque - a princesa encontra-se esperançosa.
a duquesa - esperançada? ai, meu Deus que desgraça para o reino!
o duque - não há desgraça que não possa ser remediada, Senhora.
a duquesa - e pretendeis, assim, interferir no ciclo da vida?
o duque - não, senhora, que dislate!
a duquesa - então? que pretendeis fazer?
o duque - negar, senhora, negar!
a duquesa - esse remédio parece parco na cura, Senhor.
o duque - Senhora, quantos mais enjeitados, mais oportunidades, mais circunstâncias, mais conjunturas.
a duquesa - Senhor, sois prático, mas pouco conhecedor da alma humana.
o duque - Senhora, que pretendeis desdizer?
a duquesa - Senhor, sabereis ao certo os meios sub-reptícios dos enjeitados para alcançar o trono? tal confusão perderá o reino, lançará a confusão nos campos, nas cidades e inté as ervas daninhas espirrarão envergonhadas.
o duque - Senhora, grandiosas serão as circunstâncias, desmedidas as ocorrências e inúmeras as eventualidades!
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Alegação

Voto «SIM» para acabar com os pauzinhos de videira.

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quinta-feira, janeiro 25, 2007

Nancy meets Dylan


Deus está do lado
das pessoas simples
e marcha disfarçado de pó e de vento.
Mas o desespero despedaçou-lhes o coração
E a angústia e o desânimo,
e vão embora sem encontrar
o seu caminho.
sim, o seu fim deslindarão um dia
mas a última coisa que fariam
era encontrar nessa estrada um novo trilho

Não precisas de estar aí rapariga
a tua beleza não espera por nada
Não precisas de estar aí rapariga
a tua beleza é uma cilada

Quando a estrada se desviar
e eu chegar
ao teu encontro
espreita pela janela
e vai!
não penses duas vezes

E rapariga não sabes o que fazer à vida?
Também não te posso ajudar
não, não te posso amparar
prefiro o lado escuro do dia
o lado escuro
conheces o lado escuro, rapariga?
Tenta, esforça-te e lambuza o teu passado
com melancolia
serve-te, para isso, da inveja dos vizinhos,
eles, por vezes, gostam de se besuntar
com a desfaçatez do alheio.

Não precisas de estar aí rapariga
a tua beleza não espera por nada
Não precisas de estar aí rapariga
a tua beleza é uma cilada

E olha não precisas estar aí
não, não precisas estar aí!
e não tentes ler os meus pensamentos
gosto pouco de falar
sim, é que eu gosto pouco de sussurrar!
Vai! e não penses duas vezes,
Não, não vás e não penses

Não te ouço!
percorro este meu caminho
apesar de outrora a estrada ser descontínua,
é que alcatroaram a velha avenida
e o espectro de Long John permanece por ali
sim, o espectro de Lonh John reaparece por aí
Desaparece se não queres encontrar sarilhos.

Não precisas de estar aí rapariga
a tua beleza não espera por nada
Não precisas de estar aí rapariga
a tua beleza é uma cilada

Deixa-me!
tenho apenas 16 e não quero saturar ninguém
é que eu tenho apenas 16 e não pretendo aturar ninguém.
Continua à janela rapariga
pensa duas vezes e não permaneças,
é que não vale a pena persistires rapariga.

Caminho pela estrada
o pó bloqueia-me a alma
e Long John jaz ali
morto
mas esta é a sua terra
sim, esta é a sua terra
e apesar de não parecer
esta é a sua terra.

Não precisas de estar aí rapariga
a tua beleza não espera por nada
Não precisas de estar aí rapariga
a tua beleza é uma cilada.

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quarta-feira, janeiro 24, 2007

Alegação

Voto NÃO, porque tenho uma especial predilecção por palavras acentuadas – particularmente, com til.

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Ela saiu para a rua

Sim! até se vive com dois graus positivos e o esgar do frio.
É apenas o frio.
Ela não ligando e saindo cantarolando e a rua acompanhando.
Ela saiu... percorrendo a Foz, apanhando o ar fresquinho da manhã e sorrindo de lágrima no olho, um sorriso molhado.
O andante, cadê o andante?
O transeunte fazendo contas à vida, saltam os números pelas gotículas de nevoeiro, o frio está cada vez com mais frio, vou por aí, andando, andando.
A Primavera está quase, quase, mas mesmo quase, a chegar.
Os passarinhos!
Problemas de audição?
Vou aprender linguagem gestual! - diz meio envergonhada.


"Saiu decidida para a rua
Com a carteira castanha
E o saia-casaco escuro
Tantos anos tantas noites
Sem sequer uma loucura

Ele saiu sem dizer nada
Talvez fosse ao teatro chino
Vai regressar de madrugada
E acordá-la cheio de vinho

Tantos anos tantas noites
Sem nunca sentir a paixão
Foram já as bodas de prata
Comemoradas em solidão

Pôs um pouco de baton
E um leve toque de pintura
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu ao rosto a candura

Saiu para a rua insegura
Vageou sem direcção
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura"

Letra: Rui Veloso/Carlos Tê, Ar de Rock
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terça-feira, janeiro 23, 2007

«é que dá muito mais trabalho...»

- Era para imprimir o ficheiro; frente e verso. É maioritariamente a preto e branco, mas tem meia dúzia de páginas a cores...

- Ah... Assim não pode imprimir frente e verso.

- Não posso???!

- É que dá muito mais trabalho...


- [contive-me] Dá trabalho, mas faz-se, certo?

- Ãããã...Sim, mas eu explico, é que as máquinas são diferentes e assim tenho de passar a folha de uma máquina para a outra...


- [nova contensão] E então?!

- Ãããã... Então quer que eu faça isso?


- [já no limite do auto-controlo] Sim, se é isso que tem de fazer, sim, quero!


E esta brilhante troca de palavras teve lugar, ontem, num centro de cópias!!! O que é que o homem queria?!... Que eu tivesse pena dele???!!!... Não tive! Devia?...
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Conversas na corte

cortesã - Senhor, soubésseis vós o quanto os dias acoitam em vão meu pranto.
fidalgo - Vosso pranto cala os dias com alguns reais, vende-se caro é certo, mas arrenda-vos bem mais que paciência.
cortesã - Senhor, sois injusto, vosso é o meu, meu coração, e, também, vossa é sua chave, mas tende cuidado, se a perderdes jamais será encontrada, é uma chave enamorada.
fidalgo - Vossa chave, Senhora? E quantas, como esta, mandastes laborar no ferreiro?
cortesã - Senhor, vossas palavras são cardos no meu coração. Apenas quero de vós um pouco de carinho, paciência, e algumas pitadas de orientação.
fidalgo - Senhora, tomai então esta bússola e chegai depressa, bem depressa, ao vosso destino, este fidalgo não suporta mais vosso folguedo.
cortesã - Senhor, com vossa bússola encontrarei de certo bom propósito, mas com vossos reais encontrarei, de certo, novo e valoroso curso.
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Garrett, o Bruto

É curiosa a imagem que os alunos vão colhendo dos professores. Na verdade, é frequente a ideia de que o professor apenas sabe ou conhece os conteúdos que lecciona e só domina a área de saberes que estudou. Tudo o resto é um mundo ilustremente desconhecido no universo do professor. É muito divertido, portanto, constatar os olhares de surpresa e admiração, quando se aborda, ainda que superficialmente, um outro assunto da disciplina vizinha. Apenas um comentário ou uma sugestão sobre uma temática da actualidade, um livro ou um poema, um escritor ou um filósofo, podem surtir um efeito surpreendente e transformar um professor num mestre do conhecimento, aos olhos dos alunos.
Assim foi há uma década mal medida. Nesse ano, imediatamente antes da minha aula, tinham Português. Li o sumário da disciplina bem à minha frente no livro de ponto e, ouvindo-os comentar sobre o assunto versado na aula em questão e perante alguma agitação, terei retoricamente perguntado se tinham dado “os Cinco Sentidos” de Almeida Garrett. A pergunta regressou como um boomerang A Setora conhece “Os Cinco Sentidos?!” com um misto de estupefacção e desconfiança. Conheço respondi. Os alunos não se ficaram por ali, particularmente um que se sentava na carteira da frente. Era baixo, tinha o caderno repleto de corações com o nome da namorada e extravasava romantismo e delicadeza, arrebatado pela química que o unia à amada. Via-os com frequência nos braços um do outro, enquanto me deslocava de umas salas para as outras, sempre convictos e enleados, cuidando do seu amor jovem oscilante entre o êxtase e a timidez dos lugares públicos. O questionário continuou E a Setora sabe o que é a relva? referindo-se à carga simbólica e erótica do poema. Sim, sei, respondi de novo. Ele riu-se baixinho com o colega do lado perante a descoberta de que eu afinal sabia mais do que aparentava, algo proibido e interdito e que sim, que o erotismo não me era de todo desconhecido. Continuou E os pomos? A Setora sabe o que são os pomos? Terei rematado algo sobre o erotismo das palavras de Garrett e ele intensificou o sorriso malandro Eh, a Setora sabe o que são os pomos… e continuou rindo baixinho, transparecendo que afinal eu também era uma brejeira devassa, conhecedora que me apresentava do simbolismo carnal da poesia de Garrett. A aula prosseguiu sem nada de novo. Atirada para o esquecimento a brejeirice das palavras do escritor, ali poeta, iniciámos a viagem pelos linguajares germanófonos.
Numa outra aula, talvez imediatamente a seguir, Garrett veio de novo à conversa. Desta vez não houve simbolismos nem meios simbolismos, nada de palavras que queriam dizer mais do que alardeavam significar. Dessa vez, o E. estava indignado. Indignado contra o Garrett e deixou apenas escapar Ele é um bruto! Indaguei porquê dada a invulgaridade do epíteto atribuído ao poeta. Continuou no mesmo tom irritado. Então, setora, acha bem ele dizer uma coisa daquelas à rapariga? Dizer-lhe que não a ama?, numa referência evidente a uma dos mais conhecidos poemas da lírica garrettiana. A verbalização intempestiva do desejo não era característica que se adequasse ao coração transbordante do E., mas vindo desse bruto do Garrett, outra coisa não seria de esperar.
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segunda-feira, janeiro 22, 2007

A Blogosfera no Feminino

Foto: Ben Hassett

Pedro Rolo Duarte continua a sua interessante série de entrevistas a alguns dos mais destacados bloggers nacionais. A convidada deste domingo foi, Carla Hilário Quevedo. Para aceder à entrevista completa em podcast [Antena1], clique aqui.

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Novo Dicionário Político - I

Identidade: [em teoria] grupo ideológico a que pertence um determinado partido. [em realpolitik] Os «extremos» tocam-se na falta de senso; o «centro» anula-se em busca de benesses: não existe.

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Referendo [registos]

Registe-se que o artigo que abaixo foi transcrito pelo André, do Constitucionalista Jorge Miranda, tem uma argumentação à prova de bala. Está bem pensado. Está bem escrito. As ideias estão bem definidas e defendidas. Tem a concepção ideal da realidade.
Registe-se também que constam da data do referido artigo as promessas dos movimentos afectos ao «Não» de precaver que mais nenhuma mulher seria julgada se o «Não» vencesse. Os julgamentos da Maia, Setúbal e Aveiro...
Registe-se, igualmente, aquela excelente ideia da sociedade, em conjunto com os governos, facultarem locais de acolhimento às mulheres em risco de optarem pela IGV para elas e para os seus futuros filhos. Não foi criada uma única instituição destinada a esse fim.
Registe-se, finalmente, que Thomas More escreveu uma obra chamada Utopia há 500 anos.

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conversas na corte

o duque - Minha senhora, estais tão melancólica que vos afecta?
a duquesa - Senhor, estas intrigas na corte, estas intrigas na corte.
o duque - intrigas? Senhora, não dei por elas.
a duquesa - Senhor, mas elas deram por vós.
o duque - Senhora, elas deram por ambos e ambos por elas, sabeis, porventura, quão funestas são tais penas?
a duquesa - Senhor, uma dama na corte será tão mais perspicaz quão alegre e prazenteira se "demonstrar".
o duque - Senhora, falais por meias palavras e vossas meias palavras não interpelam meu bem-estar.
a duquesa - Senhor, comentava os dislates do homem da ciência, se prossegue no seu intento de erradicar os favores na corte, o rei desterra-o.
o duque - Senhora, como sois confiada, como sois confiada.
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como baralhar as coisas II

Novo movimento:

"Eh, pá, talvez, vamos lá a ver, a questão não é assim tão simples"

Uma das frases seleccionadas: "Tenho mesmo de decidir agora?"

[há pouco, no Gato Fedorento na RTP1]

Achei este sketch genial! Pois, porque há movimentos pelo SIM e pelo NÃO, mas não há quem proteja os direitos dos INDECISOS. Os indecisos também têm direitos! Isto era obviamente uma sátira, mas muito bem conseguida – digo eu! –, principalmente porque tem um fundo de verdade preocupante... É que há, de facto, aqueles que se vão demitindo do dever cívico, perguntando "tenho mesmo de decidir agora?", alegando que "eh, pá, talvez, vamos lá a ver, a questão não é assim tão simples". Como se aqueles que já decidiram, ou que hão-de decidir até dia 11, se SIM ou se NÃO, achassem que a questão é simples!!! Isto é um modo de baralhar as coisas... Quem opta pelo SIM ou pelo NÃO não o faz de ânimo leve, não o faz por achar que a questão é simples! Todos reconhecem que o tema é complexo e todos concordam que o ideal seria não haver a necessidade real desta questão – digo eu! A consumação da decisão pessoal não é uma simplificação, é a resposta a uma necessidade.

[anteriormente: como baralhar as coisas...]
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domingo, janeiro 21, 2007

Referendo [notas avulsas]

Foto: Zena Holloway

“(…) O carácter insubstituível de todo o ser humano, antes e depois do nascimento, o sentido ético e não apenas histórico que possui a vida humana, a sua inviolabilidade proclamada sem limites na Constituição, na Declaração Universal dos Direitos do Homem e no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (que proíbe a execução de mulheres grávidas), o abalo que representaria nos fundamentos da sociedade qualquer ruptura ao princípio da inviolabilidade, sobretudo quando a violação parte de quem é mais responsável por essa vida, a demissão de solidariedade que isso implicaria, tudo são motivos que me levam a rejeitar qualquer medida legislativa que envolva a legalização do aborto.
Contra o que acaba de se dizer invoca-se, por vezes, o direito da mulher a dispor do seu próprio corpo; outras vezes, a libertação social da mulher ligada à possibilidade de abortar. Julgo que sem razão.
A mulher não tem, não pode ter, um qualquer direito sobre o feto em nome de um qualquer direito sobre o seu corpo, pois o feto é um ser diferente da mulher, está no seu corpo, depende dele, não faz parte dele (embora o corpo da mulher não seja um seu mero receptáculo).
Nem o poderia ter em nome de um qualquer direito de legítima defesa, porque esse novo ente destinado a nascer não é agressor: agressor poderá ter sido o pai, nunca, o filho; e, se há que punir, o pai deverá ser punido tanto ou mais que a mãe quando tenha sido ele que criou a situação conducente ao aborto.
(…) Por certo, importa reconhecer que a interrupção voluntária da gravidez provoca traumas, traduz e agrava desigualdades económicas e sociais, é um flagelo social. Só que daqui não resulta a necessidade de legalização. Não serão a droga e a prostituição não menos evidentes chagas sociais? E perante os flagelos sociais a atitude correcta não deve ser a de os combater e prevenir? E, designadamente, a atitude de esquerda e de progresso não deve ser de transformação da realidade, e não uma atitude de resignação e aceitação?
De resto, o aborto, é, na enorme maioria dos casos, a consequência das injustiças e das taras da sociedade. É consequência da falta de educação, de planeamento familiar, de emprego, de salário, de protecção da maternidade e da paternidade. Mas é igualmente fruto da civilização, ou da crise da civilização, hedonista, materialista e capitalista. É fruto da comercialização do sexo, da desresponsabilização em relação aos próprios actos, do consumismo a todo o custo que tal civilização tem engendrado.
(…) O que é mais fácil, o que serve mais os interesses dominantes, criar postos de trabalho, construir casas, mudar as relações económicas e sociais, ou liberalizar o aborto? O que está mais de acordo com a Constituição é realizar os direitos fundamentais relativos à saúde, à segurança social, à habitação, à família, ou facilitar a interrupção voluntária da gravidez, adiando assim o cumprimento da Constituição?
Qual a oportunidade de reabertura desta questão na difícil conjuntura que o país atravessa? Não seria mais adequado propor e adoptar medidas legislativas e políticas tendentes à efectivação desses direitos? (em vez de, também por outro lado, o Parlamento e os partidos gastarem tanto tempo com a revisão constitucional?) Qual a oportunidade de medidas legislativas e administrativas de favorecimento do aborto num país como Portugal com uma gravíssima crise de natalidade? Não incumbria, bem pelo contrário, ao Estado e à sociedade aproveitar a figura da adopção e criarem novas instituições para receberem crianças não desejadas ou com problemas?
(…) Mas será a questão da interrupção voluntária da gravidez – ou seja, da interrupção voluntária de uma vida humana – uma verdadeira questão de crenças ou convicções, pelo menos fora dos casos de malformação ou de perigo para a vida da mãe? Será uma questão de liberdade de consciência ou não será, antes, uma questão que mexe com as estruturas duma república baseada na dignidade da pessoa humana?"

Jorge Miranda
In Público, 15 de Fevereiro de 1996

Artigo completo aqui.

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Desfibrilador

Foto [parcial]: Mike Diver

Os ocasionais “retraimentos” do JMF em relação à blogosfera tocam-me, profundamente – chegam a ser até, comoventes. Desejo-lhe as rápidas melhoras para o seu problema [seja ele qual for] e deixo-lhe aqui um pequeno excerto de uma entrevista a Joaquim Fidalgo, publicada hoje no DN, que, porventura, lhe poderá ser útil em recaídas futuras:

«(...) o jornalismo é uma profissão de risco e não é só quando vamos para a guerra. É uma profissão de risco, porque temos de assumir as nossas responsabilidades permanentemente.»

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tem a minha cara...

Nem sempre foi assim – eu ainda hei-de falar sobre isso – mas hoje, acho que posso dizer que tenho uma identidade musical! Cultivo o gosto pela música nacional, apesar de não ser grande conhecedora em extensão. Olhando para a minha reduzida estante dos CD's, tenho, claramente, uns poucos que vou procurando acompanhar em profundidade – Sérgio Godinho, Fausto, Clã, Jorge Palma, Gift (apesar de o encanto pelo grupo da Sónia se estar a desvanecer) –, mas também vou estando aberta a algumas novas propostas – Toranja, Pluto, Jim Dungo, BoiteZuleika, OVO. E há ainda espaço para, por exemplo, Margarida Pinto, Nuno Prata ou J.P.Simões – se me quiserem oferecer! =) Tenho também um gostinho especial pelo que é tradicional e aquilo que vão denominando de "música do mundo", apesar de ainda muito incipiente na minha, já de si diminuta, fonoteca.

E serve este texto de "desculpa" para anunciar realização do ciclo Concertos Íntimos no Cine-Teatro de Estarreja:
- 29 de Janeiro: Sérgio Godinho
- 24 de Março: Sara Tavares
- 12 de Maio: Jorge Palma

"Tem a minha cara" – já me disseram! =)

[imagens adaptadas daqui e daqui]

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Ceci n’est pas une humiliation

«Há, em Aveiro, três mulheres que foram condenadas em tribunal e que estã o com pena suspensa»,

[Nota: Durante quase uma hora, pesquisei a foto que dava a humilhação suprema das mulheres no «julgamento da Maia»: aquela imagem que ainda hoje me recordo de as ver sair de um carro blindado da PSP, umas encapuzadas outras com os braços a tapar a cara, como se tivessem cometido o maior crime da humanidade. Nessa busca pela tal imagem, não a encontrei; o que encontrei foi muita sede de protagonistmo: sempre que pesquisava encontrava não essa imagem humilhante, mas os rostos de sempre. Junto ao tribunal da Maia, via de um lado as caras do PCP e do Bloco, do outro lado as mesmíssimas dos Movimentos "pró-vida".]

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Guia do pequeno especulador

Imagem via RTP

Vender as acções da Telecom enquanto estão acima dos 9,947 €

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Facilitismo

O Ministro da Saúde, Correia de Campos, afirmou, na sequência da morte de uma vítima de um atropelamento em Odemira e das seis horas em que a mesma vítima andou em bolandas até lhe ter sido prestada a assistência devida, estar “orgulhoso por ter resistido ao facilitismo e demagogia e abrir um inquérito”. Perfeitamente aceitável que para socorrer um homem sejam necessárias seis horas para Correia de Campos, portanto, e nada de mais que não se apurem responsabilidades, de forma a que tragédias destas sejam evitadas no futuro. Pois bem, outro homem morreu em circunstâncias análogas, em apenas quinze dias. Quantos mais terão de morrer para que Correia de Campos se digne a tomar medidas?
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O princípio de uma longa guerra [política]

«ganhe o "sim" ou ganhe o "não", nada, ou quase nada, mudará na prática. Como não se percebe que o PS, excepto por exorcismo, se meta numa querela que só serve para promover o Bloco. A Igreja julga que pode fechar a porta ao aborto e os políticos que se livraram de um grande sarilho. Erro deles. Com o "sim" ou o "não", o referendo é o princípio de uma longa guerra, não é o fim.»

Vasco Pulido Valente, Público, 20 Janeiro 2007
Artigo completo aqui.

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sábado, janeiro 20, 2007

Ceci n’est pas une pipe


Ecografia às 10 semanas aborto

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sexta-feira, janeiro 19, 2007

Referendo [notas avulsas]

Ainda a propósito disto, «o constitucionalista Jorge Miranda defende que o resultado do referendo sobre a despenalização do aborto deve ser sempre respeitado, mesmo que não votem metade dos eleitores, argumentando que a condição legal para ser vinculativo é contrária à democracia.»

Artigo completo aqui.

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Simplesmente Maria...

Foto: Miguel Madeira/PÚBLICO (arquivo)

Atenção: esta não é uma foto de Maria José Morgado, procuradora-geral adjunta. Não! Esta é a Maria!

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a vida no campo




















é extremamente agradável
e tão intensamente
agradável
que não dou atenção
absolutamente nenhuma,
um autismo assumido,
a umas de persistentes e a outras de incomodativas
dores musculares.
sim,
a vida no campo exige uma espécie de esforçada comunhão
com as ervas e, especialmente, com as daninhas,
mas eu e os meus músculos havemos de ter uma conversinha
e cheira-me que isto não vai acabar bem..



ilustração

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quinta-feira, janeiro 18, 2007

Pedido de esclarecimento

Foto: Chema Madoz

Enquanto as sondagens vão dando uma vitória semi-folgada ao SIM, e das partes interessadas já se irem [efusivamente] digladiando [até já temos os blogues oficiosos do SIM e do NÃO], continuo com uma dúvida por esclarecer:

Mesmo que o referendo não venha a ser vinculativo [menos de metade dos inscritos nos cadernos eleitorais não votarem], José Sócrates já deixou claro que a IVG até às dez semanas avança na mesma. Também já foi suficientemente claro quando disse que se o NÃO vencer, a IVG não avança. Agora só falta saber o que acontece, caso o NÃO vença e o resultado do referendo não venha a ser vinculativo.

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Pensamento da Noite

Fazer crítica literária à poesia assemelha-se a pedir análises clínicas à alma.

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quarta-feira, janeiro 17, 2007

Novo Dicionário Político - G, H

Governo: numeroso conjunto de pessoas que recebe ordens da União Europeia, das associações patronais e sindicais, das associações municipais e regionais, das bases, do partido e de todos os caciques possíveis e que as implementa sob o sublime nome de "reformas".

Hemiciclo: Assembleia de Freguesia de Portugal.

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Tudo vale a pena

O assunto daria um tratado, mas conversas assim são um verdadeiro prazer.
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Hélio quê???...

Ainda a recuperar do facto de Hélio Pestana constar da lista dos 100 Grandes Portugueses (entre Sampaio e Bocage) venho agora discorrer [leia-se, dizer mal!] mais um bocado sobre o assunto. Não vou discutir posições, nem ausências indesculpáveis, nem presenças imerecidas – para além do Hélio Pestana!!! Vou falar apenas da apresentação em si.

Ao som de um gongo aparecia no ecrã o número da posição e depois uma imagem, o nome e as datas (nascimento/morte) do visado, ouvindo-se na voz da Maria Elisa uma pequena apresentação da pessoa em causa. Seguiam-se num curto espaço de tempo as declarações de algumas personalidades sobre o votado, procurando sintetizar o porquê da sua grandiosidade.

Apenas em dois votados, a "síntese da grandiosidade" foi feita de modo diferente: na primeira pessoa. E esses dois foram: Hélio Pestana e Mourinho. Especulando sobre os motivos, sou tentada a considerá-los bem distintos. No caso do Mourinho porque há lá alguém mais indicado para dizer bem do Mourinho do que ele próprio?! =) Quanto ao Hélio, deve ter sido uma inevitabilidade porque, muito provavelmente, nenhuma das personalidades convidadas saberia sequer quem ele é!

Maria Elisa apresentou Hélio Pestana de forma claramente pejorativa, dizendo qualquer coisa que eu retive como: «As votações abertas têm destas coisas!» - parvoíces, digo eu! Será possível que, de facto, alguém – muita gente! – ache que o moço fez alguma coisa pelo país... Maria Elisa também pensou isso e, apesar de não o ter dito, deixou-o transparecer... Está mal! A sua posição naquele espaço não lhe permite esse tipo de parcialidade, ainda que, neste caso, claramente compreensível... – digo eu!


Eu nunca vi o concurso com bons olhos, achando uma idiotice meter no mesmo saco todo e qualquer português e pedindo-nos para escolher um... Não há comparações possíveis nessa vastidão! Mas o aparecimento do Hélio naquela lista dos 100+ fez-me esquecer tudo isso, ecoando cá dentro durante uns tempos repetidas vezes: «mas está tudo parvo???!!!...»
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terça-feira, janeiro 16, 2007

Surrealismos: André Breton


«o mais simples acto surrealista consiste em ir para a rua com pistolas em punho e disparar o mais possível para a multidão ao acaso. qualquer pessoa que nunca tenha tido o desejo de lidar desta forma com o ignóbil princípio da humilhação e estupidificação pertence obviamente a essa multidão com a barriga à altura das balas.»(1)

André Breton

(1) Fonte: Cathrin Klingsohr-Leroy, Surrealismo, Taschen.

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Afinal…

Foto: Quentin Lënw, The Truth Is Out There

… a prometida retoma sempre chegou: as vendas de automóveis de luxo em Portugal aumentaram 63% em 2006.

Sei de um "blogger", que anda sempre muito atento aos indicadores de consumo [particularmente, aos mais falaciosos], e que [também] vai ficar muito feliz com esta notícia.

Bendito Sócrates!

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Olha, que lindo!

A última invenção do Ministério da Educação deste país prevê que um mesmo professor, no segundo ciclo do Ensino Básico, ensine disciplinas variadas como Português, Matemática, Língua Estrangeira e Ciências da Natureza, de acordo com o noticiado. Muito bem! Depois venham falar de qualidade no Ensino. Apenas com um professor, o Estado poupará milhões, milhares de professores ficarão no desemprego e os alunos, as principais vítimas destas ideias peregrinas, ficarão como estão, quando saem do Ensino Básico: sem conseguir ler e escrever sem dificuldade, com uma falta de vocabulário elementar de arrepiar até carecas ou executar as operações mais simples.
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Um português na Índia

O português é um rapaz inquieto no que toca ao viajar. Amiúde faz comparações com o seu país natal e tece comentários saudosos em torno da gastronomia lusa. Nada, mas rigorosamente nada, o satisfará: se come goulash, o guisado de casa é que é bom, se tenta uma moqueca, ai que é da minha rica caldeirada, se prova pão preto de cereais, ai o meu rico pãozinho português e por aí adiante. Não conheci português ainda, além de quem me é chegado, que em viagem se mostre satisfeito com o encontro com o Outro e com a descoberta de que esse outro, não tendo que ser necessariamente igual a ele, também por isso se viaja, pode também ser agradável e gratificante. Melhor ficar em casa, quando assim é. Não tendo que aceitar tudo o que é novo como bom, não ter de o eliminar só porque é diferente não me parece má ideia.
Ontem pela hora de jantar fui brindada com um desses comportamentos, numa reportagem sobre a visita presidencial à Índia. Dizia Cavaco Silva, Presidente de todos nós, que, tanto ele como a sua esposa, atenta e de queixo erguido, não gostavam de picante e, portanto, têm comido arroz, pão indiano e iogurtes. Muito importante, de resto. Não gostar de picante não é pecado, pobre homem, sabe deus, alá e jah o que tem padecido, mas, quando se ocupa o lugar que se ocupa, um pouco mais de elegância e um pouco menos de provincianismo seria desejável, a menos que esteja a devolver a simpatia ao Primeiro-Ministro indiano quando este afirmou que lhe haviam dito que, à sua semelhança, Cavaco não tinha muito jeito para a política.
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O mais importante!

O mais importante será sempre o voto!
Mais do que uma vez, aqui no Geração Rasca e aos quatro ventos, alerto para a inércia portuguesa e Europeia.
Uma ferida aberta na democracia e na auscultação vinculativa dos seus cidadãos.
Um constante desperdício de uma oportunidade que nada teve de fácil a sua conquista ao longo da história recente da humanidade.
Mais uma vez, pondero se levamos a sério o dever de participar activamente naquilo que nos rodeia e que inevitávelmente nos influencia, e se alguma vez aprenderemos a pôr o pé fora do umbigo.
Questiono-me, no caso do referendo, se o voto deveria ser obrigatório?
Porque não? Quantos mais referendos ao aborto com altos valores de abstenção ( 70% dos portugueses ) vão ser necessários para que tenhamos vergonha na cara?
Melhor, quantas pessoas saberão que é no dia 11 Fevereiro que deverão ir votar?
Será que têm ideia quanto custa dar-lhes a oportunidade para participar activamente num tema em concreto do país? Que, no fundo, somos nós todos que pagamos - vá votar ou não!
Pouco me importa se votam sim ou não ou em branco, importa-me saber no dia 11 de Fevereiro se vivo num país de gente crescida ou não!!!
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segunda-feira, janeiro 15, 2007

O texto e a sua construção

O processo de construção do texto é tão ou mais cativante do que o próprio texto. Reformulo: a construção de qualquer obra é tão ou mais empolgante do que a obra. Tomando à priori um exemplo de um texto genial, é sempre com assombro que se desvenda, por exemplo, numa versão fac-similada, os processos com que este foi conseguido. Assombro, não pela genialidade do texto; antes pela fragilidade/humanidade com que, exemplifiquemos, um exímio poema foi construído. Aquela sensação de que estamos muito distantes do génio, desaparece no exacto momento em que os processos que foram utilizados para o criar são os mesmíssimos que utilizamos quotidianamente para escrever uma carta de reclamação ao servidor de net: escrever, rasurar, complementar, organizar as ideias, etc.

Ou seja, passa a existir um acontecimento de identificação. E esta identificação entre uma carta profissional e um poema, não tem um efeito banalizador sobre a tal obra de arte, afastando-a por efeito de menosprezo da sua qualidade. Promove uma aproximação entre o leitor e o poeta na medida exacta em que o último deixa de ser uma semi-divindade para o primeiro e passa a ser um homem comum. E, convenhamos, os homens preferem conviver com homens do que com deuses.

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A Blogosfera Profissional [sem tabus]

Foto: Jomppe Vaarakallio

Pedro Rolo Duarte entrevista um Profissional da Blogosfera: Paulo Pinto Mascarenhas.

Toda a entrevista em podcast aqui. [a não perder]

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Caminhos & Atalhos

Foto: Jamey Stillings

Enquanto o governo continua a assegurar que estamos no bom caminho, o indicador da OCDE para Portugal recuou 0,1 pontos em Novembro; e o Eurostat divulgou os números relativos ao PIB na União Europeia no terceiro trimestre do ano, confirmando que Portugal teve o mais baixo crescimento homólogo da EU: 1,5% [muito abaixo da média europeia: 3,0%]. Ainda assim, a taxa de crescimento anual de 1,5% representa o melhor resultado da economia portuguesa nos últimos quatro trimestres.

Já hoje, o Instituto Nacional de Estatística revelou que a inflação média anual registada em Portugal em 2006 ficou nos 3,1 por cento [uma subida de 0,8 pontos percentuais face ao ano anterior] – o governo apontava para um aumento dos preços de 2,9 por cento. Como se já não bastasse tanto ímpeto reformista, agora é este que anda com a conversa da flexisegurança, que é como quem diz: a flexibilidade dos outros e a segurança deles.

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I still have a dream today

I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: "We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal."

I have a dream that one day on the red hills of Georgia, the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood.

I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.

I have a dream today!
Martin Luther King

Martin Luther King completaria hoje 78 anos.

Texto e imagem daqui

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domingo, janeiro 14, 2007

Homem, Dr.

Tem a idade da sabedoria. A fina ironia encontra a máxima expressão nas suas hebdomadárias crónicas.

Crónicas com verve. Uma escrita de fundo. Que precisa de tempo e espaço para viver.

Viver e escrever: a causa e a consequência. É o cronista que escreve com mais classe em Portugal. Escreve-nos de Moledo. Chama-se António Sousa Homem. Diz não ter «email», mas tem blogue. Tem a sabedoria da idade.




«Por mim, tenho resistido à exigência de possuir um telemóvel no bolso. A idade não mo aconselha, vou dizendo. Nos bolsos, uso apenas um lenço, o relógio que pertenceu ao meu avô (que o recebeu de um inglês do Douro a quem administrava as vinhas) e a pequena caixa que contém a dose diária dos comprimidos que cuidam das pobres coronárias. A minha sobrinha Maria Luísa, que tem dois telemóveis, tentou informar-me das vantagens de comprar um; parece que a principal delas é poder falar com quem queremos, onde quisermos, além de podermos ser contactados em qualquer lugar, coisa que não me seduz muito. Bem vistas as coisas, o único estranho que me contacta sempre à mesma hora é um senhor da rádio que, logo de manhã, me esclarece que chove em Lisboa ou anuncia que vai trovejar no Porto ou nas Beiras. Aguardo pacientemente que me informe sobre a queda das folhas da meia dúzia de plátanos ao fundo da rua, ou sobre a hora a que chega o correio ao portão de casa. Ele mantém-se renitente. Teimamos, cada um por seu lado. É isto a vida.» in Revista Notícias Sábado – 2 Dezembro 2006
[imagem retirada daqui]

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Surrealismo da semana [prémio Max Ernst]

Foto: Jaap Vliegenthart

Jornalista do DN [em versão blogosférica] ofende-se com blogger, por este ter apontado erros [alguns de facto] num artigo publicado por uma sua colega no DN. Como se não bastasse, remete a responsabilidade para [a fonte] o site da Presidência da República.

O Paulo Tunhas e o JPP é que têm razão…

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mas está tudo parvo???!!!...

E, entre Sampaio e Bocage, eis que surge... Hélio Pestana!!!

[Quando eu recuperar, pode ser que escreva mais alguma coisa...]
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sábado, janeiro 13, 2007

GR [reportagem no exterior]: Gulbenkian

entrada para a exposição [21:55h]

Para os espertos [como eu], que deixaram agendada para a última hora a visita à exposição de Amadeu de Souza-Cardoso na Gulbenkian, deixo aqui uma informação que vos pode ser útil: se estão a pensar aparecer nas próximas horas, não se admirem com as duas imensas filas que vos esperam: a primeira, para comprar bilhetes [cerca de 500 pessoas]; a segunda, para entrar na Exposição propriamente dita [mais outras 500] .

Enquanto estava distraído a escrever isto, acho que entraram mais umas 100...

Boa-sorte! [para mim também]
PS. Lá para as 2:00 [am] devo estar a entrar na sala da exposição.
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como baralhar as coisas...

Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse

Divulguem o encanto
do ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
[bonita]

A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
o ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou

Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol como é costume foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança

Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta e só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós

Sérgio Godinho, "Espalhem a notícia" (1981)


Vá-se lá saber porquê, mas, nos últimos tempos, tenho-me lembrado muito desta canção. Canta, sem dúvida, a beleza do nascimento de uma criança e o quase misticismo de uma mulher grávida. Digo «sem dúvida» pois não me parece que, quando desejada e sem complicações, alguém ponha em causa tudo isto... Quando desejada!... O "Não" tem, por vezes, uma postura universal de enaltecimento de toda esta beleza e misticismo, apelando, irracionalmente, a um sentimento emotivo, que todos partilhamos - quando tudo corre bem!... Isto é um modo de baralhar as coisas... O "Sim" não nos impede de continuar a admirar embevecidos toda esta mística, e, em último caso, luta até para que não se degrade...
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sexta-feira, janeiro 12, 2007

Pensamento do dia que adormece

Falar é ter demasiada consideração pelos outros. Pela boca morrem o peixe e Oscar Wilde.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, 2003.
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Camilo e Eça

Se, perante pergunta tão "inovadora", como: quais os livros que "levaria" para uma ilha deserta?, responderia sem hesitar: Camilo, Camilo, Camilo.

Camilo é esfusiante, megalómano e, ele mesmo, uma fonte romanesca.

Camilo é trágico e cómico.

Camilo possui um "jorrar" linguístico tão impressionante quanto o de Shakespeare.

Escreveu uma das sátiras mais geniais da nossa literatura: "A queda de um Anjo". E existe, existiu ou existirá, parlamentar tão, profundamente, provinciano quanto "Calisto Eloy"?

E, na literatura portuguesa, há algum narrador tão genial quanto o de Camilo?

Camilo é um português de gema, olha para si com auto-ironia e desconsiderando-se, mas respeitando a sua pátria e a sua gente.

Eça é, "infelizmente", um português "atípico": o intelectual emigrante.

Genial, colocando-se em bicos de pés perante os "nativos" e um pedante não assumido.

Ilustração: Camilo Castelo Branco por Vasco
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PAULA RÊGO


Os meus mais sinceros parabéns a uma carreira brilhante, motivo de orgulho para quem se sente português e amante da pintura e das artes em geral.


Ontem na Sic, uma entrevista que se destinava à cobertura do lançamento do seu tríptico Vanitas, Paula Rêgo mostrou não só a sua contínua produtividade artística como também uma faceta própria de quem lida com suposições e interpretações livres.


Um quadro é uma imagem sujeita a interpretações variadas consoante o sujeito, e Paula Rêgo assumiu em directo um episódio singular da sua humildade e da sua abertura quase que ingénua para discussão temática sobre a sua nova obra.


A repórter, numa série de suposições que irritariam qualquer artista, pergunta no meio da conversa que, segundo as suas palavras, não se podia ver a morte não como um fim mas como eterna, isto porque não se mata a morte.


Paula rêgo, de boca aberta, repetia: " ah, pois é!" " olhe que foi você que inventou isto!" "ah pois é!". e numa atitude que nunca vi em nenhum artista, em directo construiu com a repórter, um novo tema para interpretar os quadros que ela pintou e que ali esperavam a sua 1ª exposição.


imagino o Ego daquela repórter.


- criou um significado de um quadro de Paula Rêgo, com Paula Rêgo!


O mais impressionante foi a necessidade de P.R. tornar claro várias vezes que a interpretação era muito boa, e que a autoria não era dela mas sim da repórter. Quase como a dizer... este quadro agora também é teu! E obrigado!
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