domingo, dezembro 31, 2006

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade
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Diálogos conjecturáveis

AN - Posso entrar? diz ele a medo e duvidando das reacções.
AV - Sim, já tardava, foi-se o meu tempo e eu estou extremosamente profuso.
AN - Ai é? Dê-me umas dicas para saber lidar com isto.
AV - Dicas? Ó homem se você não trouxer sapiência satisfatória...
AN - Eu venho de Oxford, portanto sabedoria não me falta, preciso apenas de uma análise prática, estatísticas davam um certo jeito.
AV - Eu? Demasiado remoto para interpretações anuentes.
AN - Vá lá, ao menos uma check list.
AV - Esse é um termo bem atraente, aprendi-o há pouco e olhe dá imenso arranjo, ao menos divisa-se a actuação.
AN - Ok, new ideas: educacão, cultura, profissão, leitura?
AV - Ó rapazinho, essa lista coexiste connosco pacificamente há algumas dezenas.
AN - Eu estou cá pra mudar o mundo, portanto, vá lá, correu mal o quê?
AV - Os representantes políticos são designados pelo povo, o povo pondera e conclui: os representantes políticos não nos representam!, a representatividade dos políticos é a eleição e na política ganha-se muito ou pouco dinheiro, depende da espécime de contemplação.
AN - Ó tiozinho, há uma execração de paraísos por aí, tire umas férias.
AV - Pois é rapaz, às vezes embaralha-se-me o entendimento. Vá lá, entre, beba um copo e depois enfoque muito afincadamente: - a última rodada caiu-me tão mal! - e governe, desgoverne e festeje.
AN - Eu acredito no meu país, eu acredito em mim, eu acredito na juventude, eu acredito nos jovens, eu acredito. Eu acredito! Eu acredito! Eu acredito!
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para terminar o ano com uma mensagem positiva...

[...]
Aquele que está vivo
não diga nunca "nunca"
pois aquele que não luta
é de si mesmo cativo

A vida só não muda
se tu ficares parado
esperando a morte lenta
com o "nunca" atravessado

Ontem, hoje e amanhã
sempre o sol renascerá
p'ra iluminar
a multidão que se levanta! Anda!

Não atrases o futuro, tira o "nunca" da memória!
Não pares de lutar!

Pedra a pedra, faz o muro crescer com a vitória
que mundo há-de mudar!
[...]

José Mário Branco, «Aquele que está vivo não diga nunca "nunca"» (1978)
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sábado, dezembro 30, 2006

Previsões para 2007

Como a ano passado não errei por muito, resolvi voltar à carga com as minhas presciências [desta feita, de uma forma mais sintetizada]. Assim, para 2007, antevejo:

- A completa desintegração da classe média portuguesa;
- Os novos países membros da UE continuarão a ultrapassar-nos em todos os rankings de desenvolvimento;
- O PSI20 irá manter-se em alta [assim o espero], e a Banca, continuará com lucros elevadíssimos;
- Iremos assistir ao desmoronamento do “Império do Fórum Picoas” – para desespero do eixo Lisboa-Cascais;
- O Referendo ao Aborto vai causar alguns, inesperados, embaraços ao governo;
- O Euro-milhões tornar-se-á, inequivocamente, a maior fonte de proveitos do nosso país;
- José Sócrates continuará solteiro – apesar do esforço de algumas revistas cor-de-rosa [e dos seus pais], em lhe quererem arranjar namoradas e noivas à força.
- Múltiplas e discretas cerimónias de distribuição de “cargos” por elementos mais próximos a Cavaco, acabarão por denunciar que a relação entre o Governo e a Presidência já transitou da fase de namoro para a plena União de Facto;
- O «Sol» continuará a fazer uma pequena sombra ao «Expresso», porém, o Arquitecto Saraiva ainda não perderá, em 2007, a esperança de ser o próximo laureado com o Prémio Nobel da Literatura;
- Lá mais para o final do ano, numa manhã de intenso nevoeiro, Pinto da Costa desaparecerá [subitamente] junto ao Douro;
- O Barcelona será novamente Campeão Europeu, e o fêcêpê, para não variar, Campeão português;
- O meu Sporting vai ter novamente acesso directo à Liga dos Campeões, e o penteado à Paulo Bento vai ser very fashion;
- Infelizmente, ainda não vai ser em 2007 que o Filipão vai treinar o Benfica;
- Mesmo com fortes chuvadas durante o Verão, a saga dos incêndios irá continuar [menos na RTP]. Mas como a culpa já não pode ser atribuída à dupla Santana/Durão, nem à ineficácia e/ou falta de meios dos bombeiros, as responsabilidades serão "justamente" imputadas às temperaturas anormalmente altas para a época, aos incendiários, e ao habitual exagero na cobertura destes acontecimento por parte dos mass-media.
- A direita portuguesa continuará em estado gasoso, e a esquerda, em estado líquido.

Bom ano de 2007!
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She Sells Sanctuary, The Cult

Seria uma das músicas da minha play list, caso me atrevesse algum dia a fazer alguma.

Uma play list funcionaria, para mim, como algo com vida própria, portanto muito desaconselhável de se elaborar.

Seria um aglomerado de fragrâncias notáveis e que me trariam à memória acontecimentos passados e eu sinceramente sou pouco dada a exercícios deste género.

Mas esta semana tirei algumas horas para organizar a minha caótica discoteca e dançaram-me nas mãos, a tal vida própria de que vos falava atrás, os "Cult".

Os "Cult" lembram-me anos oitenta, dança, cumplicidade, super bock, amizade dependente de amizade e algum sofrimento.

Não foram poucas as vezes que dancei freneticamente ao ritmo de "She Sells" e me senti acima das estrelas.

Ao meu lado estavam as minhas grandes amigas desta época áurea e uns quantos frequentadores da States, a discoteca de música alternativa de Coimbra, a única onde se poderia dançar "She Sells".

Numa dessas noites a música serviu de desencontro e a avenida Caloust Gulbenkian invadida por dançarinos frustrados.

É que a zanga entre "punks" e "betinhos" escolhera, naquela noite, outro estilo de dança.

Mas o grande desapontamento foi sem dúvida ainda nem sequer ter tocado nenhum dos hits dos Cult.

E eu e o meu grupo de amigas, lá fomos desesperadamente deprimidas para o "Tropical", desabafar as nossas mágoas com o Sr. Rodrigues.

E como era paciente o Sr. Rodrigues.

Capa do disco aqui
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Festival Fim d'Ano

Descobri esta semana, por acaso, o "Festival Fim d'Ano"... Isto, dito assim, pode ser qualquer coisa... Investiguei... No Marquês (Porto) de 6a a 2a com workshops de danças e músicas tradicionais e concertos/baile dentro desse espírito. Ora o Marquês é já ali ao lado... Decidi experimentar...

Hoje de tarde houve workshop de danças europeias (italianas e gregas) e à noite Monte Lunai e Mú. O workshop foi orientado pela Mercedes Prieto dos Monte Lunai, logo, durante o concerto/baile deu para saber alguma coisinha (pouca!). Os concertos/baile são num salão (a cave da igreja) com um pequeno palco para os músicos e um grande espaço para toda a gente dançar. Há aqueles que já sabem tudo, por exemplo, de outros encontros como o Intrecéltico ou o Andanças, mas também há aqui e ali aqueles que - como eu! - não fazem ideia onde por os pés e as mãos e para onde virar em que altura... Mas tudo se resolve... tudo, tudo, não, mas alguma coisa - o Maria vai com as outras funciona aqui mais ou menos bem =)

Isto dura até 2a feira, na Igreja do Marquês (Porto). Os interessados podem ver a página do festival a partir do site da PédeXumbo.

Cartaz retirado do site do festival (a partir da PédeXumbo).

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sexta-feira, dezembro 29, 2006

uma lição de empreendedorismo


Criança de 7 anos - Nancy, estive a pensar seriamente e vou montar uma banca de limonada.
Nancy - ai é?
Criança de 10 anos - Uma banca de limonada, agora? não me parece lá boa ideia.
Nancy - porquê?
Criança de 10 anos estupefacta - ó Nancy, então? 'tamos no Inverno.
Nancy anuindo - bem, concordo, efectivamente uma banca de limonada no Inverno não me parece que resulte, mas no Verão, é uma excelente ideia.
Criança de 7 anos pensativa - bem, Nancy, vou precisar da tua ajuda.
Nancy - Sim? e posso saber para quê?
Criança de 7 anos - ora, preciso que m'ajudes a fazer a banca, eu não sei.
Nancy - parece-me que vais ter de contar antes com a ajuda do teu avô, é a pessoa indicada.
Criança de 7 anos - boa ideia, depois dou-lhe uma percentagem do meu dinheiro.
Criança de 10 anos - e quanto vai custar cada limonada?
Criança de 7 anos - bem, estive a pensar em 1 euro, é uma boa quantia.
Criança de 10 anos - 1 euro? tu 'tás parvo? quem é que te vai comprar uma limonada por 1 euro?
Criança de 7 anos - vais ver se eu não vou vender imensas limonadas e não penses qu'é só limão, água e açúcar, pois também vou pôr imenso gelo. O gelo é qu'é o segredo e depois também não há tantas bancas de limonada por aí, pois não Nancy?
Nancy - eu não conheço nenhuma!
Criança de 10 anos - bem, tu lá sabes, mas...
Criança de 7 anos - olha, vais ficar cheia d'inveja quando vires a maquia de dinheiro qu'eu vou amealhar até ao final do Verão. Nancy, tu achas qu'eu me vou lembrar desta ideia no Verão?
Nancy - se for uma boa ideia vais-te lembrar, se não for vais-te esquecer.
Criança de 4 anos - Nancy, eu cá vou montar uma banca de tesouros.

ilustração de Greg Becker
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quinta-feira, dezembro 28, 2006

Ele, Jorge

Para ele, tudo ou nada. O meio termo não tem cabimento na sua personalidade indomável, irónica, perspicaz. [...] Estupefacção ao saber-se que este homem de couraça rija aprecia o bom-humor, lê e declama poesia de António Nobre, José Régio, Fernando Pessoa, gosta de pintura e de animais, entre outros prazeres. [...]

Polémico, tacteia minas e armadilhas, sabe contorná-las, inverter situações melindrosas, desarmar argumentações susceptíveis de beliscarem a colectividade que conhece no seu âmago desde os anos 60. [...]

Desempoeirado, livre de preconceitos e destemido, espevitou amigos do peito e inimigos figadais. Com ou sem razão, de maneira aveludada ou truculenta, cada qual ajuize por si. [...]

["Livro de Ouro: Futebol Clube do Porto", Diário de Notícias, 2000]

Ele, Jorge, faz anos hoje.
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Agenda 2007: Falar de Blogues

Sempre às 19h, sempre na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa

Falar de Blogues Temáticos (7) - Março 15, 4ª feira
Estado Civil , Pedro Mexia
Foram-se os Anéis , José Nunes
Memória Virtual , Leonel Vicente
Não Apaguem a Memória , Daniel Melo

Uma das vocações dos blogues é a de poderem desenvolver um tema e darem um contributo específico, muitas vezes personalizado. A variedade temática é uma das riquezas da blogosfera.

Falar de Blogues na Educação (8) - Abril 19, 5ª feira
Geografismos , Luís Palma/ Escola Secundária Severim de Faria, Évora
Inquietações Pedagógicas , Maria Emília Brederode e Ana Maria Bettencourt, Noesis e Escola Superior de Educação de Setúbal
Taçbei , Isabel Lopes e Carla Feitor/ Centro de Educação Infantil de Vila Franca de Xira

Um dos sectores onde os blogues podem ser muito úteis e influentes é o da educação. Alunos, professores, pais, investigadores e técnicos têm à disposição um utensílio de influência e de expressão. A expressão é uma das traves mestras da formação na escola.

Falar de Blogues com cronistas (9) - Maio 17, 5ª feira
Abrupto , José Pacheco Pereira,
Bicho Carpinteiro , José Medeiros Ferreira,
Bomba Inteligente , Carla Quevedo
Glória Fácil , Fernanda Câncio

Há cronistas que têm blogues. Porquê? O que acrescenta o blogue à crónica na imprensa e ao comentário na televisão?

Falar de Blogues com José Luís Orihuela (10) - Junho 22, 6º feira

Professor na Universidade de Pamplona tem corrido o mundo a falar de blogues e a formar especialistas e não especialistas na Web 2. Em 2006 publicou La revolución de los blogs, editado pela La Esfera de los Libros de Madrid. Está incluído no International Who´s Who of Professionals desde 1999.

Organização: José Carlos Abrantes e Livraria Almedina
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Hors-texte

Imagem: Karlheinz Smola, Fahrradtag

«Não quero, de modo algum, dizer que a imaginação anunciaria as futuras verdades e que deveria estar no poder, mas que as verdades são já imaginações e que a imaginação está no poder desde sempre.»

Paul Veyne, Les Grecs ont-ils cru à leur mythes?, 1983
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Conversas na Livraria

Foi isto enquanto vasculhava entre livros na tentativa de me decidir Este? Este ou este? Ou nenhum mesmo, carecida que estou de espaço e tempo para albergar mais livros. A voz ergueu-se e com ela a brisa dos corpos em trânsito entre um e outro escaparate, nos corredores estreitos. Estão aqui, estão aqui todos, este é o último, depois tem aqui as crónicas. A voz feminina questionou algo que não se deixou decifrar na distância e no tom de voz baixo. O rapaz continuou Sabe que ele é um escritor que se ama ou se odeia. Tem uma forma muito diferente de escrever, escreve tudo o que lhe vem à cabeça ao mesmo tempo. Mas é importante, é sempre nomeado para o Prémio Nobel. A mulher continuou pedindo informações e explicações. Olhando para os romances esboçou um ar temente ao volume de páginas e, entretanto, dirigindo-se para uma outra estante na peugada do empregado, solicitou-lhe o Livro de crónicas. O empregado foi peremptório e verdadeiro. São três, os livros de crónicas: Livro de Crónicas, este aqui, que é o primeiro, depois o Segundo Livro de crónicas e o Terceiro Livro de crónicas. A mulher queria saber mais e retomou o tema dos romances. Qual, qual seria melhor? O rapaz aconselhou-a a talvez começar pelas crónicas, o busílis centrava-se na escolha entre os três volumes. Achei por bem acudir-lhe na decisão. Disse-lhe pois que eram bem diferentes entre si, sendo que o primeiro se destacava dos outros por ser menos autobiográfico. Opinião, pura e simples. A mulher quis saber Já leu? Respondi-lhe que sim, que já lera os três mas que o primeiro era o meu preferido. A mulher esboçou um sorriso delicado e simpático e manifestamente feliz por encontrar alguém que já tivesse lido o escritor sobre o qual subitamente o seu interesse recaía. A conversa espraiou-se para o próprio autor E viu-o na televisão? Sim, sim, vi. É extraordinário, não é? Sim, de facto. E já reparou como ele escreve? A rapidez? Fantástico! Pois, pois. E agora já tem outro romance escrito além deste que acabou de publicar. Eu disse que pela entrevista colhera a impressão que este livro não teria sido publicado anteriormente para não coincidir com a publicação do outro livro. Procurei-o na estante e vi o livro no escaparate bem de frente para ambas e disse-lhe aquele ali. A mulher ficou surpresa. Aquele? De cartas? Sim, um livro que foi publicado com as cartas que ele escreveu à mulher enquanto esteve na Guerra Colonial, em Angola. A mulher ficou alvoraçada. À primeira mulher? E eu, Sim, julgo que sim… A mulher continuou, desta feita, com um ar cúmplice de mulheres que confessam o indizível, a voz levemente mais baixa, Àquela, à Carmito? Sim, que ele e as mulheres… Agora o ar rapioqueiro Ai, António, meu ganda maluco! Restava-me desfazer o equívoco e dizer-lhe que não, que a mulher a quem dedicou os aerogramas não se chamava Carmito. Pressenti, no entanto, que se iniciaria uma conversa para a qual não eu teria respostas, os irmãos, os pais, as filhas, as mulheres… Esbocei um sorriso, desejei à senhora boa leitura e retirei-me. Depois da conversa o leitor deve ser deixado a sós com o texto. Dois é companhia, três uma multidão. A Carmito que o diga.

imagem: "Pública" nº 545/ 29 Out. 06
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O homem que tinha o coração na cabeça


era um homem vulgar.

Caminhava apenas com um pouco mais de dificuldade do que os outros, afinal um coração pesado, pesa quanto baste.







desenho: André, 7 anos
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quarta-feira, dezembro 27, 2006

Novo Dicionário Político - D

Democracia: actualmente, são sinónimos da palavra democracia os neologismos 'mediacracia' e 'mediocracia'. O primeiro assegura-nos que só quem 'passa bem' nos media pode ser eleito. O segundo garante-nos que se pode sempre descer mais um degrau na escala da mediocridade. Em nome da dita democracia, claro.

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Arte poética: José Luís Peixoto















Fotografia: Axel Bückert

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luís Peixoto, a criança em ruínas, Quasi Edições, 2001
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O próximo líder do PSD [Parte 6 de 6]

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1984 ou de como Orwell deprimiu Francisco José Viegas

Confesso, Francisco José Viegas, também me sinto um pouco deprimida.

Deprimida com os anos que passam e a sensação de não conseguir agarrar o tempo que não estanca.

Deprimida com doença de familiares, com expectativas profissionais que se goram, esfuziante com outras que também não.

Deprimida com a impossibilidade de ser um pouco mais feliz ou infeliz, de trocar postais de Natal com quem amamos ou não.

Deprimida com a morbidez do dia a dia, a inefável realidade da moralidade que nos rodeia.

Deprimida por também ter sido atacada pelo vírus da moralidade.

Deprimida por reconhecer alguma ténue beleza na paisagem, alguma melancolia, algumas folhas que não caem, deixando uma sensação de estanqueidade.

Deprimida por não conseguir desfrutar do meu iPod, essa extraordinária invenção moderna.

Deprimida por me sentir deprimida eu que não sou nada dada a depressões.

Deprimida por resistir contra a depressão e premir o botão do automatismo intelectual e de me recusar a aceitar a depressão como forma de ser, moderna.

Quanto ao cartão único?

Parece-me um pouco estranho argumentarmos que os americanos não possuem sequer Bilhete de Identidade, como exemplo virtuoso, quando sabemos que o seu BI é um outro número qualquer.

Mas o cartão único é incapaz de me deprimir, pelo menos hoje, amanhã?

É um novo dia e confesso, tenho bastante afinidade com a minha (in)capacidade (in)coerente e civilizacional de me deprimir.
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Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes
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Mariza, concerto em Lisboa

Mariza é da nova geração de fadistas a que eu mais aprecio, apesar de a concorrência ser de levar em conta.

Espanta-me quando ouço falar na falta de vitalidade da música portuguesa, já há alguns anos que não "andavam por aí" fadistas com tanta qualidade.

Só para nomear alguns: Aldina Duarte, Katia Guerreiro, Mafalda Arnauth, Camané, Helder Moutinho.

Mas Mariza canta com a alma e a sua voz e o seu domínio técnico estão quase a atingir a perfeição.

E depois não esquece uma lição do passado, não é só o fado dos poetas o que deve ser cantado, é também o fado da rua, traiçoeiro e amaldiçoado.

E "Ó Gente da Minha Terra" nesta versão ao vivo é simplesmente arrepiante!

imagem retirada aqui
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SG em ligação directa...

No dia 7 deste mês, como andei a apregoar aos quatro ventos, há já alguns meses - será que ainda haverá alguém que não saiba do que é que eu estou a falar?... - tivemos Sérgio Godinho em "Ligação Directa" na sala 1 (agora Suggia) da Casa da Música.

A selecção das músicas foi muito próxima da do Avante, acrescendo, em especial e de forma intercalada, todas as músicas do novo álbum. Houve algumas falhas ou interferências indesejadas, que, na austeridade daquela sala - digo eu! - foram mais visíveis. Mas, em palco, SG fala além dos sons e das palavras, fala com as mãos, com os olhos, com o sorriso,... com as rugas. Deixa transparecer a teatralidade das suas letras, com gestos e movimentações dando vida a personagens, envolvendo a melodia, acentuando as diferenças de ritmo e interpretando as diferenças de espírito. O público foi respondendo q.b., de forma cautelosa, mais uma vez enquadrado na austeridade do espaço - no Avante o espírito é outro, indiscutivelmente! =) Ainda assim acabámos todos de pé a acompanhar, se não estou em erro, "O Porto aqui tão perto". Finda a apresentação das músicas, mais os regressos ao palco, os músicos despediram-se ao som do final quase apoteótico de "Só neste país" - acompanhado quase aos berros por uma tolinha que lá estava... =)

Podem espreitar excertos de algumas músicas do novo álbum no site da CDGO ou da FNAC e podem ver o vídeo de lançamento ("Às vezes o amor") no YouTube.

Imagem retirada do vídeo via YouTube.

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terça-feira, dezembro 26, 2006

Indução


«o pintor não é alguém inspirado, mas sim alguém capaz de inspirar os outros»
Salvador Dali
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Eu não diria tanto…

Fotografia: Michael Vesen

«nada pior e mais ridículo do que as memórias de quem não tem vida que mereça ser contada»
Miguel Sousa Tavares, Expresso, 23 Dezembro de 2006

Este pequeno excerto remeteu-me de imediato para dois casos algo sui generis: “As Pequenas Memórias” de José Saramago; e o badaladíssimo Best-Seller luso de Carolina Salgado.

No primeiro caso, trata-se [reconhecidamente] de uma figura pública com umas memórias muito pequenas, e [na melhor das hipóteses] bastante desinteressantes. No segundo caso, [e apesar da más-línguas] também se trata de uma figura pública [mais reconhecida noutros meios], mas com muitas e interessantes “memórias”.

Apesar de José ter decidido narrar um trecho da sua vida que não tem interesse nenhum, e [da] Carolina ter optado por contar uma das mas interessantes etapas da sua “carreira”, a verdade é que Saramago demonstra que é possível redigir memórias - pequenas, vulgares, e desinteressantes -, com imenso estilo.
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Se

«Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,

Quando os outros os perdem, e te acusam disso,

Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam

E, no entanto, perdoares que duvidem,


Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança

E não caluniares os que te caluniam,
Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,

E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,
Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,

Sem fazer distinção entre estes dois impostores,
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,

Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,

Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira

E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,

Se és capaz de arriscar todos os teus haveres

Num lance corajoso, alheio ao resultado,

E perder e começar de novo o teu caminho,

Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,


Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos

E fazê-los servir se já quase não servem,

Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,

A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno

Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo

E não sofrem decepção os que contam contigo,
Se podes preencher todo minuto que passa

Com sessenta segundos de tarefa acertada,
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,

Será teu tudo que nela existe
E não receies que te o tomem,
Mas (ainda melhor que tudo isto)

Se assim fores, serás um HOMEM.»
Rudyard Kipling

R. Kipling enganou-se: onde está HOMEM, deverá ler-se 'deus'.

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a praça da república e as sandes de pepino


a praça da república de Coimbra é um ponto de encontro.

hoje encontrava-se estranhamente vazia e de repente na minha vaga distracção lembrei-me da quadra.

gostei de a ver assim, meio melancólica, meio outonal, um tudo ou nada invernal, numa introspecção filosófica a raiar o absurdo e, muito sem querer, imaginei Oscar Wilde a passear por ali.

talvez com uma dúzia de acólitos, mas exuberante tanto em aparência como em inteligência, algo de que nem todos nos podemos orgulhar.

imagem retirada daqui
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Não, obrigada!

Através da porta aberta da igreja do cemitério desenhava-se um vulto alto e esguio. Um bigode estrategicamente rectangular e aparado entre o lábio superior e o nariz. Óculos e sobre a batina esbranquiçada um paramento da cor da Paixão de Cristo. Tarde soalheira e amena, em tudo indiferente à partida da D. Silvina, uma vizinha idosa a quem a vida deixou de sorrir nos últimos anos. A senhora da foice deu-lhe finalmente a mão na antevéspera de Natal. A voz do diácono ouvia-se fora das portas da igreja e ecoava sonora na entrada do cemitério estranhamente ensolarado. Cá fora um punhado de homens pouco atentos. O discurso o de sempre; o medo da morte, a salvação, blá, blá, blá, até que sem se entender muito bem porquê, nem sequer como ou vindo de onde, o sermão deu meia volta e a palavra criancinhas também associada ao direito à vida passou a surgir amiúde no discurso monocórdico do representante do divino. Para trás ficou a pobre D. Silvina. Sim, que interessava agora que se estivesse perante a família enlutada num momento particularmente difícil, ainda mais pela proximidade do Natal, festa da família por excelência? Nada, rigorosamente nada. O discurso continuou lampeiro, aparentemente absorto da razão pela qual estavam ali reunidas algumas pessoas. Oportunismo é um nome carregado de conotações negativas, a evitar, portanto, por quem advoga preocupações morais e/ou éticas e religiosas. Pareceu-me, pois, de enorme mau gosto e falta de respeito que o funeral da D. Silvina fosse aproveitado para pôr em marcha mais uma achega contra o aborto. Ver se me lembro de me manter o mais longe possível da Igreja Católica nos próximos meses, nada que me seja particularmente doloroso. Ao que parece, todas as ocasiões serão poucas para passar a palavra: funerais, casamentos, baptizados, crismas e comunhões, nem sei se deva passar à porta da Basílica. Tudo serve. Que o diga o Cardeal Patriarca com as criancinhas em fundo.
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cala-te, alface!

a utilização de palavrões é uma espécie de auto-terapia.

ainda há dias Maria Filomena Mónica era assemelhada a um caprinae, por um blogger com alguma fama em causas.

o seu texto era extremamente interessante fazia uma comparação acutilante entre "O Bilhete de Identidade" da professora e o "Eu, Carolina" de Carolina Salgado.

ganhou a análise corrida das biografias e perdeu a comparação entre espécies.

Maria Filomena Mónica, enquanto figura pública provoca-me um grande bocejo e portanto nenhuma obra que publique a enaltecer-se, enquanto figura pública, me provoca a mínima simpatia.

quanto a toda a sua obra extra, não tenho nenhum reparo a fazer, nem sequer, provavelmente, terei capacidade para analisar a sua qualidade técnica.

mas adjectivar seja quem for de uma forma menos própria, sempre me provocou uma repulsa intelectual difícil de digerir e este impropério lançado pelo blogger, provocou uma espécie de reacção em cadeia de aversão em escala, o seu blogue, desde aí, jamais foi o mesmo.

por vezes, temos alguma dificuldade em refrear as palavras, pois esta necessidade diária de dizermos alguma coisa provoca um cataclisma interior, uma incontrolável ânsia em "caracterizar".

a vida, por vezes, esvazia-se de conteúdo e o passatempo mais apetecível é, sem dúvida, desancar no próximo.

mas desancar com alguma ousadia também deveria ser feito com classe.

tentando recuperar bloggers um pouco desnorteados entre o que é ofensa e crítica, proponho o seguinte:

e se em vez de compararem os ódios de estimação a animais com conotações pouco próprias, adoptarem, em nome de alguma "dieta" intelectual, a utilização de termos vegetarianos?
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segunda-feira, dezembro 25, 2006

O próximo líder do PSD [Parte 5 de 6]


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sex machine


se alguma vez conseguisse fazer um best of, muito próprio, esta canção estaria nos seus lugares cimeiros.
como a voz que lhe deu corpo desapareceu, dedico-lhe estas linhas, até porque a alegria que irradia da dança é de uma irreverência e felicidade extenuantes.
Viva o Rei!

imagem retirada daqui
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Resquícios de Natal

Depois de ter prosperado aí uns 20 Kg,
aqui estou
resistente à euforia da época.
Poderia dizer-vos:
é uma maçada ir às compras,
um duplo aborrecimento as decorações esfuziantes,
um triplo aborrecimento os familiares retocarem as suas queixas contra o mundo
e a política e o euro e coisa e tal.
Mas eu sou uma incondicional e toda a família me tolera muito estoicamente.
Este ano a prenda familiar foi um digníssimo e ousadíssimo iPod,
aguardo uma certa aptidão para resistir ao seu glamour,
o senhor parece-me um pouco compenetrado da sua modernidade.
Afinal ele está aqui para mudar o mundo,
dos objectos.
Reconheço, sou um tanto obstinada e gosto de manter, com este tipo de revoluções, uma distância socialmente correcta. No fundo, bem lá no fundo, é pura marcação e da serrada!
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domingo, dezembro 24, 2006

História das estórias

Primeiro desenho com uma figura do Pai Natal. Da autoria de Thomas Nast, e publicado no semanário Harper’s Weekly em 1866.

A personagem do Pai Natal baseia-se em S. Nicolau, mas a ideia do velhinho de barba branca que conduz um trenó puxado por renas foi introduzida por Clement Clark More, num poema intitulado de "A Visit from St. Nicholas" [que com o passar do tempo se tornou mais conhecido por "An account of a visit from Saint Nicolas"]:

He was dressed all in fur, from his head to his foot,
And his clothes were all tarnished with ashes and soot;
A bundle of toys he had flung on his back,
And he looked like a peddler just opening his pack.

His eyes—how they twinkled! his dimples how merry!
His cheeks were like roses, his nose like a cherry!
His droll little mouth was drawn up like a bow,
And the beard of his chin was as white as the snow;

The stump of a pipe he held tight in his teeth,
And the smoke it encircled his head like a wreath;
He had a broad face and a little round belly,
That shook, when he laughed like a bowlful of jelly.
He was chubby and plump, a right jolly old elf. . . .

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Merry Christmas

Esse tempo não chegara ainda. Ela sabia, não obstante, que ele chegaria. Se calmo ou impetuoso desconhecia porém. Sabia apenas que quando chegasse, ela amaldiçoar-se-ia por um dia ter desejado que houvesse saltos no calendário e que, dessa forma, se excluíssem meses, festividades e celebrações que secretamente começava a odiar. Detestava obrigações.
Estava certa que nesse tal tempo vindouro três coisas lhe faltariam: o aroma da canela a espraiar-se pela casa, o sorriso complacente e carinhoso do pai, a euforia infantil e contagiante da mãe. Se mais lhe faltaria não se lhe permitia agora adivinhar. O futuro deve permanecer incerto para que o presente se torne suportável e enquanto esse tempo desenhado no futuro se mantinha distante, repartia os dias numa pacata existência.
No decorrer de todos os Invernos surgia invariavelmente com o desconforto do frio, sem cerimónias nem avisos instalado na alma, uma data incontornável no calendário cristão. Em criança agradara-lhe a data. Os dias eram contados com esmero e ansiedade. O dia propriamente dito quando chegava era tão desejado que mal se podia fazer esperar e todos os minutos e horas pareciam eternidades que se prolongavam impiedosamente. Tudo isto lugares-comuns, tão comuns e banais como a própria existência. Questionava-se se, caso na sua vida não habitassem todos estes lugares-comuns revestidos da menor importância para o decurso da humanidade, a própria vida teria sentido. Esperando um momento de excelência acima do comum dos mortais arriscava-se a ver a vida passar a seu lado, passear-se ali mesmo rapioqueira e displicente., enquanto ela permanecia estática no cais de embarque. A vida sorridente acenar-lhe-ia da janela do comboio em movimento. Mais uma despedida, portanto.
No início daquele Inverno decidiu que talvez pudesse ser diferente e, por assim ser, povoando-lhe a mente o sonho de que noutras paragens seria decerto outro o sentir e fazer da data comemorativa, fez as malas e partiu à descoberta. Na alma a curiosidade e o desejo desse Natal que ao longo da vida lhe parecera mais autêntico, mais genuíno e espiritual: o Natal dos cânticos, das crianças de gorros e luvas, os tons de verde e vermelho dominantes com uns salpicos de dourado e uns farrapos de neve alva nos cocurutos das casas e das árvores altaneiras, o Natal soturno e acolhedor ao jeito do Velho Continente, o Natal de Dickens decididamente, iluminado com velas e candeias seguras por pequenas mãos enluvadas contra a inclemência do Inverno, cantado um uníssono por vozes imberbes.
Acordou na capital britânica leve e renovada. Para trás, as obrigações e responsabilidades, as contas do mês e as compras do supermercado, os detergentes e branqueadores, o papel higiénico e os guardanapos. Saiu para a rua despreocupada, talvez feliz. Consigo, além do companheiro de viagens e de vida, apenas o júbilo dos irresponsáveis. Havia gente, gente e mais gente. Turistas de cores e linguajares diferenciados coloriam as ruas, preenchiam os mercados como um imenso pontilhado numa tela, povoavam os parques desnudados como uma pincelada mais brilhante contra o cinzento pastoso, assombravam os cantos mais recônditos da cidade, deixando-a desvelada perante os olhares perscrutadores, privada da sua própria intimidade. Uns carregavam sacos, quase todos apressados e de passo estugado, outros detinham-se em frente dos monumentos e, esboçando um sorriso ou articulando uma pose consentânea com a ocasião, deixavam-se fotografar para na posteridade recordar tais dias, talvez, ou exibir, num tempo mais imediato e próximo, no escritório a colegas e conhecidos como atestado da incursão à velha Albion. A imensa mole humana avançava como uma torrente para as lojas, cuja música, entrecortada pelo o barulho persistente da máquina registadora, se esvaía no turbilhão de vendilhões. Depressa concluiu que o Natal dos livros que lera era mais belo do que o que se pavoneava na sua frente e a arrastava a espaços numa enxurrada de compras, sacos e pacotes, lembranças e presentes. O aroma da canela a espraiar-se pela casa, o sorriso complacente e carinhoso do pai, a euforia infantil e contagiante da mãe surgiram-lhe na memória. Confirmou que dessas sentiria falta um dia.
E foi assim que, numa encruzilhada, alguém vindo não se sabe de onde, os abordou. Era um homem magro de feições vincadas e rosto longo. Trazia no semblante um sorriso aberto e nos gestos um desembaraço gingão. Destacava-se no meio da multidão. Era alto ainda que algo curvo, carcomido pelo tempo decerto, talvez por um tempo incerto. As vestes pardacentas repeliram-na instintivamente. Não se mostrou incomodado. Permaneceu imperturbável, aparentando nada lhe afectar a manifesta falta de à-vontade dela. Aproximou-se mais, afável. Ambos pararam expectantes. Ao que viria permanecia um mistério. Abeirou-se do rapaz e pediu-lhe um cigarro no seu linguajar anglófono. De seguida aconchegou-se na rapariga e, quase segredando-lhe ao ouvido, proferiu algo que até hoje não se deixou divulgar. Ela sorriu algo tímida, ruborizando levemente em sintonia com a cor do casaco que envergava. O rapaz a seu lado assistia complacente. Pegou então na mão enluvada da rapariga e colocou-lhe um beijo dedicado mesmo na palma da mão, fechando-a carinhosamente de seguida. Despediu-se do rapaz. Agarrou-o, deu-lhe um abraço vigoroso como só os homens sabem fazer e, enquanto se afastava ligeiro, escapando-se entre a diabólica multidão, soltou um Merry Christmas! Feliz Natal então.

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Surrealismos: Wojtek Siudmak


Wojtek Siudmak,
Looking at you pictures is a moving experience. What boundless fantasy and what prodigious ability to make come true. An almost unbelievable talent, more gifted and infinite than the one who guides, expresses himself and invents our richest dreams.

Federico Fellini
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Superlativo Absoluto Sintético [no feminino]






















Na última sexta-feira, decorreu em Lisboa um agradabilíssimo [e interessantíssimo] jantar de bloggers. Bem… para ser mais fiel à verdade dos factos, foi mais um jantar de bloggers femininas, com cinco [“quase” seis] penetras.

Como éramos poucos [e supostamente bons], dividimo-nos “equitativamente” pela mesa. As capacidades inatas de José Carlos Abrantes para moderar querelas, acabaram por o colocar no centro mesa – e a 125_Azul, ficou a fazer-lhe marcação directa. O Espumante ficou no lado direito a debater-se com a Carlota, a Sinapse, e a Luna. Do lado esquerdo, eu, fiquei totalmente “enclausurado” entre a Leonor, a Tati e a Di. [piu, piu] Como já devem imaginar, e para não variar, aquilo não deu muita luta – cada vez que eu abria a boca, era completamente trucidado pelas três bloggers de serviço na ala esquerda da mesa.

A Leonor, o mais recente reforço do GR, demonstrou que está mais que preparada para o novo desafio que lhe lançamos; a Tati, é a Tati [mais palavras para quê]; e a Di [a mulher mais alta da blogosfera lusa, sueca, e arredores], tapava-me a visibilidade, e nem sequer me deixava ver a decoração de Natal [que, segundo elas diziam, até parece que estava engraçada].

Dada as contingências, acabei por não saber muito bem como é que correram as coisas na ala direita da mesa, mas aquilo deve ter dado alguma luta, porque, no final, o Espumante me pareceu um bocado arrasado. :)

Porém [e para causar alguma inveja entre os faltosos], posso dizer que o repasto não estava nada mau, o local foi [quanto a mim] bastante bem escolhido, e as bloggers presentes, para além de serem todas charmosíssimas, interessantíssimas, e inteligentíssimas, também são, simpatiquíssimas.

Agora, para por a conversa toda em dia, terei de me reunir brevemente [talvez num almoçinho] com a ala direita da mesa, e... para o ano há mais.

Foto: Aaron Goodman
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sábado, dezembro 23, 2006

O próximo líder do PSD [Parte 4 de 6]


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tinha-me esquecido...

Eu já sabia, mas tinha-me esquecido. A ver se para o ano não me esqueço...

Não ir à FNAC em vésperas de Natal!

Eu até estava na baixa, numa de comércio tradicional, ou algo género - o que eu tinha decidido era não ir aos grandes centros comerciais (até porque estava sem carro)... E, depois de ter passeado Cedofeita, ia a caminho de Santa Catarina e, na passagem, lembrei-me de espreitar uma coisa que andava à procura na FNAC... Asneira! Grande asneira! "Ora, com licença, com licença" para tentar atravessar as quatro filas compactas de pessoas para a caixa que ocupam quase todo o espaço da entrada... Procura de um funcionário disponível... Não tinha o que eu queria... ... ... Ainda bem!!!...
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Agenda 2007: «Falar de Blogues Reloaded»

Segundo consta [por aí], está prestes a "sair do prelo" uma nova série do «Falar de Blogues». Estas iniciativas organizadas por José Carlos Abrantes e a Almedina, têm sucesso garantido. Eu não sou de tricas mas, segundo ouvi dizer, até vai voltar a haver um «Falar de Blogues no Feminino». A ser verdade este rumor, a Almedina, no Atrium Saldanha, vai voltar a estar ao rubro.

Para mais pormenores, os inúmeros fãs destes acontecimentos blogosféricos, devem estar [particularmente] atentos às informações veiculadas no «Mestiçagens» e na Almedina.net.
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sexta-feira, dezembro 22, 2006

Novo Dicionário Político - C

Congressos: os congressos estão para as bases como as antigas missas em latim estavam para os camponeses: a maior parte não percebe o que se diz, mas comparece-se para não se ficar mal visto.

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O próximo líder do PSD [Parte 3 de 6]


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O feitiço contra o feiticeiro

Aulas de substituição podem custar um milhão ao Estado. Convinha, pois, a bem de todos, que fizessem o trabalho de casa antes de mandar coisas destas cá para fora.

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Um Bom Natal


para toda a equipa e para todos os leitores do "Geração Rasca".

Gostaria de vos dizer que aqui me sinto em casa, sentadinha no sofá mais confortável da Divani & Divani.

Um agradecimento muito especial ao André, pois se aqui estou é pelo seu convite, o qual eu agradeço do fundo do coração.

E agora vou ali cantar o jingle bells, pois como já devem ter reparado... eu gosto de canções pimba ;)

imagem retirada daqui
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o assombro com o mundo

O dia acabou tarde ou a noite cedo, conforme a perspectiva.

Prefiro alinhar pela primeira hipótese.

Estas linhas comportam algum desgaste psicossocial, hoje fiz um esforço, enorme, para compreender a dimensão humana de um ser amável.

Eu gosto de seres humanos.

Os seres humanos, ao contrário dos objectos, transmitem-nos vida e, se forem pertinentes, uma outra perspectiva de enfrentar o mundo.

Este ser humano, diferente, cantou durante alguma parte da noite uma meia dúzia de canções pimba.

E este ser humano de uma vivacidade e extroversão incontáveis é alguém nascido e criado numa aldeia, trepou árvores, experimentou cavalinhos em bicicletas obsoletas e desceu as encostas desgastadas por brincadeiras fortuitas.

Ouvi-o falar, contar os seus anseios quanto ao futuro, as suas expressões características, o seu abanar de cabeça, muito particular, acompanhado de uns olhitos pequenos, desesperados e em busca constante de movimento.

Eu continuo perplexa e a perplexidade permanecendo descontinua na minha perturbação.

Perante determinados seres humanos, os meus juízos morais coexistem com uma certa tristeza e alguma estranheza, numa relação algo assombrada com o mundo.
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duas sugestões... para quem está no Porto

O meu fim de tarde e noite de hoje são agora tranformados em duas sugestões para quem estiver no Porto:

- Feira do livro no Mercado Ferreira Borges

Tem livros mais baratos e... livros muito mais baratos! Não são os títulos acabados de sair, mas também tem livros relativamente recentes. Mas as grandes baixas reflectem-se nos livros editados há mais tempo. Chega mesmo a haver aí umas cinco bancas cheias de livros (já descatalogados - ou algo parecido...) onde se apregoa qualquer coisa como «10 livros por 10€, independentemente do preço marcado». É certo que não nos saltam à vista, mas quem se quiser dedicar à procura, tem muito com que se entreter! Eu não me retive muito tempo nessa secção, onde a falta de tempo e o amontoado desorganizado superou em mim a possibilidade de alguns achados... Mas do resto da feira ainda trouxe alguma coisa... Porque é que nestas histórias das feiras a gente acaba sempre por gastar mais do que devia?...
Até dia 22 (ou 23 - não percebi bem...). Entrada livre.


- Cabaret Molotov no Convento de S. Bento da Vitória (por trás da Cadeia da Relação)

Pelo Teatro de Marionetas do Porto, um espetáculo onde mantive o sorriso na cara do início ao fim. Dois homens e uma mulher manipulam uma variedade de bonecos, bonequinhos e bonecões e imergem no seu mundo, coabitando de maneira harmoniosa. Ouve-se russo, alemão, italiano, francês e espanhol, mas o importante não são as palavras é o som que elas produzem. "Vemos" uma série de objectos incorpóreos que ganham vida pelo gesto e pelo ruído da voz. A acompanhar tudo isto, estão, a um canto, um órgão, um acordeão e uma bateria tocados todos por uma só pessoa que envolve todo o espetáculo, com músicas de Gotan Project e Yann Tiersen (entre outros).
Até dia 23 (sábado). Bilhete individual 10€. Em grupo (4 ou mais pessoas) 8€. Jovem/sénior 50% desconto. Espetáculo para maiores de 12 anos.
[Agradeço a indicação do espetáculo no errortográfico.]

Imagem via Teatro de Marionetas do Porto.

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estórias populares: direita em estado gasoso

Esta estória não tem inocentes: uma comissão política que exagera e um grupo parlamentar que se excede. Só há uma coisa que é indubitável: a continuarem assim, do pouco que resta, não vai sobrar nada.
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quinta-feira, dezembro 21, 2006

O próximo líder do PSD [Parte 2 de 6]


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Prendas de Natal

este ano as prendas de Natal viraram-se invariavelmente para uma livraria.

eu e as livrarias, as livrarias e eu, grandes debates, grandes debates.

cá vai então a minha selecção para "alguns" dos nossos governantes:
José Sócrates - Como fazer de conta que não se comunica, comunicando (no prelo)

António Costa - Jamais, em nenhum lugar e em tempo algum, conheça as afirmações bombásticas que se podem utilizar especialmente para determinados pedidos de determinadas associações (no prelo)

Mariano Gago - Euromilhões, acerte nas Universidades que irão fechar as portas (no prelo)

Manuel Pinho - A crise "desenergética" em Portugal (no prelo)

Maria de Lurdes Rodrigues - Como lidar com professores, aprenda a pensar positivo (no prelo)

A oposição também merece algumas obras literárias:
Marques Mendes - Hamlet ou como os espectros, no reino, possuem humores duvidosos (no prelo)

Jerónimo de Sousa - Como se devem ministrar recursos humanos com eficácia (no prelo)

Francisco Louçã - Como fazer de conta de que não se gosta de "standards" americanos (no prelo)

Paulo Portas - Conversas com Deus

imagem retirada daqui
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quarta-feira, dezembro 20, 2006

O próximo líder do PSD [Parte 1 de 6]

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se calhar não era por aqui...

- Ó pai-e, ainda falta muito?
- Não, filho, é só passar a ponte e estamos quase lá.

- Ó Manel-i, mas ali atrás aqueles sinais todos, redondos de fundo branco e bordo vermelho a dizer "excepto metro", se calhar estão a dizer que não podemos ir por aí...
- Ó Maria, não podemos?! Claro que podemos! Então da última vez, há 10 anos, quando cá viemos por onde é que passámos?... Claro que podemos!

- Ó pai-e, mas este piso é diferente e a ponte tem uns carris...
- Átom, estiveram a melhorar a estrada e se calhar o eléctrico voltou à ponte...

- Ó Manel-i, mas agora que passámos a ponte, o piso está a ficar muito irregular! E parecem-se mesmo com traves e carris...
- Não ligues, Maria. Devem ser obras. Esta cidade está sempre em obras!

- Ó pai-e, aquelas pessoas ali na plataforma estão a olhar muito para nós...
- Deixa-as olhar, filho! Deve ser dos pneus furados. Assim que a gente encontrar uma bomba eu vou resolver o assunto. Não vou parar aqui no meio do túnel que é um bocado estreito... Ainda provocavamos um acidente...


Isto sou eu a brincar com o que se passou já no mês passado... O senhor em causa que me desculpe... Eu nem imagino a aflição do homem quando se deu conta que estava dentro no túnel do metro... Mas, tendo em conta que nem aconteceu nada de grave, a situação é hilariante!

Portanto, para os mais distraídos, aqui fica o aviso:

O tabuleiro de cima da ponte D. Luis I está, há mais de 3 anos, fechado ao trânsito rodoviário! É favor utilizar o tabuleiro de baixo da dita ponte, ou as pontes do Infante ou da Arrábida.


[fotos via A Cidade Surpreendente e Metro do Porto.]
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este filme não tem por base uma história verídica

a entidade reguladora da energia tem um poder demasiadamente circunspecto, tão ou mais circunspecto quanto o do Ministro responsável pela pasta.

primeiro o responsável pela entidade reguladora diz que os portugueses são demasiado energéticos;
depois o ministro vem dizer que não senhor, os portugueses são é moderadamente energéticos;
depois o parlamento contradiz-se: uns dizem que sim senhor, somos muito energéticos, outros dizem não senhor, não somos nada e em absoluto energéticos, temos é energia quiçá desaproveitada.
depois de o parlamento se "descontradizer" resolve voltar a "descontradizer-se" e apela à presença no parlamento do responsável pela entidade reguladora da energia;
e então não é que num ápice de energia, demasiado energética, o ministro da pasta resolve "despachar" o responsável da entidade reguladora da energia, do cargo?;
as bancadas da oposição continuam baralhadas quanto à falta ou excesso de energia e continuam a fazer questão da presença do homem da energia para que lhes sejam retiradas as dúvidas energéticas existenciais;
e enfim, o partido do governo resolveu igualmente desfazer a dúvida de todos nós: afinal há ou não há energia a mais em Portugal, caro ex-regulador, mas ainda "expert" no assunto da energia?

poderemos reflexivamente "desconcluir":

- ele há homens que "descarecem" urgentemente de um determinado tipo de dieta?

ou isto será caso para mais uma comissão parlamentar daquelas cujas conclusões são extraordinariamente "desenergéticas"?
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Boa disposição de Natal

Aqui na empresa onde trabalho, onde estamos muitas vezes até bem depois das 10h da noite e trabalhamos, quando é preciso, ao fim-de-semana, decidiu-se por bem não trabalhar dia 26 de Dezembro.

Pois hoje um senhor telefonou-nos a perguntar se estávamos abertos dia 26, pois queria entregar-nos uma encomenda e, como não trabalhava no dia 26, "dava-lhe jeito". Pois quando lhe dissemos que no dia 26 estávamos fechados, mas poderíamos atendê-lo ao sábado, se necessário fosse, o mesmo declarou, chateadíssimo, que neste país não se trabalha, etc., etc., etc.

O típico pessimista nacional: mais do que analisar o que o rodeia, acha sempre que tudo está mal e que a culpa é dos outros.
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"Post" Scriptum

eu e o meu computador já chegámos a um acordo.

afinal eu preciso de uma certa calma e ele de uma certa rapidez.

às vezes é preciso parar, pensar, discutir e chegar a conclusões.

graças a deus tenho um computador compreensivo.
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é preciso ter alguma calma

com os computadores lentos, demasiadamente lentos.

a presente espécie é de uma lentidão decisiva um tudo ou nada enervante.

confesso, sou uma rapariga que gosta de alguma acção e acção convém ser acompanhada de "alguma" decisão.

o presente objecto, bastante útil, tem como mania pensar demasiado quando se lhe coloca uma questão prática.

ora bem, não sou assim tão precipitada como o caro leitor está a pressupor, vá lá seja um pouco mais compreensivo do que eu, é que numa altura tão absolutamente decisiva como esta é imperioso contarmos com aliados prestativos.

entendo, este meu computador é essencialmente reflexivo.

e o que vale é eu estar de excelente humor e dar-lhe decididamente o benefício da dúvida, mas... a minha paciência, com este tipo de ferramentas de humores lentos, demasiados lentos, também tem alguns limites.

agora, por exemplo, numa manifestação muito própria de independência e autonomia pede-me para reiniciar, vejam bem se uma relação conflituosa deste género tem alguma hipótese de reinício.

por isso, e para evitar problemas de maior, o melhor que nos poderá acontecer é fazermos uma pausa, pois, ao que me parece, estamos perante uma relação que se predispõe a uma "certa" conflituosidade.
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terça-feira, dezembro 19, 2006

Novo Dicionário Político - B

Bases Partidárias: São as bases que votam para eleger líderes e definir estratégias. Errado. As bases partidárias são constituídas, maioritariamente, por pessoas que pensam que a primeira medida a tomar para relançar o país na senda do futuro é a atribuição da licença para a construção da casinha.
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Para quê?

Olho para a Time em que todos fomos declarados Pessoa do Ano e penso: com tantos milhões de vídeos, blogues, podcasts, etc., etc., para que serve isto? Para que serve falarmos? As novidades estão sempre a três cliques de distância, nada do que digo não foi dito já por um catalão, português, monárquico, liberal que há-de haver nalgum lado da blogoesfera. Para mais, enquanto os portugueses ainda sentem a blogoesfera como novidade e coisa de gente muito à frente, o resto do mundo já anda a pensar no próximo passo depois dos videoblogs (e onde já estarão os podcasts...). Mas enfim, tudo isto, no fundo, é mais liberdade, e é isso que quero. E já agora quero ainda mais tradições cívicas, rituais mínimos mas sólidos, monarquias democráticas, pequenos gestos partilhados, nações fortes, e muita liberdade nos interstícios de tudo isto.
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Contra a TLEBS

Para a suspensão imediata da experiência da TLEBS, pode ser assinada esta petição, promovida pelo nosso ex-colega José Nunes, que, no momento em que escrevo isto, já conta com mais de 2000 assinaturas.
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sair à rua!...

Hoje saí à rua!

Vi pessoas e ouvi converas e entrei em livrarias e deambulei pelos becos e andei de comboio e andei de autocarro e disse umas dez vezes "obrigada e boa noite".

Voltei a reparar que

As pessoas são brutas e falam alto e os funcionários nem sempre sabem o que fazem e as vielas são escuras e os comboios andam cheios e os autocarros cheios andam.

Mas

a história de vida do vizinho do lado é curiosa e há gente prestável e competente e é maquiavelicamente reconfortante circular pela cidade de transporte público quando mesmo ao lado há uma fila interminável de automóveis e é agradável descobrir mais um bocadinho da cidade aqui ao lado que sempre nos tinha passado despercebido e sabe sempre bem retribuir as boas noites e agradecer pequenos gestos de simpatia olhos nos olhos e, desde que tenhamos vestido camisolas e casacos e cachecol e luvas, até o friozinho na cara sabe bem!

Às vezes é preciso reaprender a apreciar as pequenas coisas boas que se passam lá fora...
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o cavalheiro

continuo a apreciar nos homens esta postura.

muito raramente o admito às minhas amigas pois, com aquele descaramento próprio de amigas, chamar-me-iam ultrapassada e eu, muito sinceramente, convivo intensamente mal com tal palavra, demasiado árdua.

poderia ser frontal e dizer-lhes:

nã, nada disso!

e atirar-lhes com a certeira:

vocês apreciam aquele ser racional moderno capaz de vos largar a porta da Mango nas ventas?

mas as minhas amigas encolhem os ombros, enfim estão tão convencidas da sua modernidade e independência.

e muito dificilmente conseguirei alertá-las dos perigos que correm.

mas eu aprecio um verdadeiro cavalheiro.

como o meu padeiro, por exemplo.

o sr. manuel padeiro, chega à avenida e toca a corneta da toyota dyna às oito da manhã, depois volta a tocar umas... dez vezes, enfim, até lhe aparecerem todas as clientes do costume, e quando a dona estrela ou a dona lurdes não estão, continua a tocar, se não o sabe, pois outra das virtudes cavalheirescas do sr. manuel padeiro é saber as novidades da vila e, muito eticamente, contar-nos a sua aversão, muito particular, ao reino.

isto é uma pouca vergonha! já viram? as palmeiras, vocês sabem quanto custaram as palmeiras? e a ETAR? pois, a ETAR tá'li pra inglês ver.

ou então: já não há costumes como "intigamente" elas deixam-nos e eles, se preciso for, voltam-nas a aceitar de passadeira vermelha.

quando ouvi pela primeira vez a expressão "passadeira vermelha" fiquei intrigada, mas depois percebi, foi uma espécie de encadeamento lógico momentâneo, o sr manuel padeiro ouviu a expressão no telejornal, na véspera dos óscares.

e, se ele não fosse um cavalheiro com pruridos éticos, saberíamos os verdadeiros podres da sociedade, com uma obra literária do estilo confessional: eu, Manuel padeiro.

a ética fez-nos perder um artista, o que é uma verdadeira maçada, mas é por estas e por outras que continuo a considerar esta pequena particularidade no sexo oposto, apesar de, para as minhas amigas, fazer de conta que mais mas que também.
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segunda-feira, dezembro 18, 2006

Novo Dicionário Político - A

Autarcas: os autarcas não são o grupo de políticos que gere o Poder Local. Eles são, na realidade, um esmerado grupo de pessoas cujos feitos mais brilhantes consistem na implementação de rotundas em estradas sem cruzamentos e de sentido único. Rotundas essas sempre alindadas por palmeiras e relva sintética.
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A alternadeira

Sempre tive a Dom Quixote como uma editora séria, menos permeável a lixos encadernados. Afinal é a editora de António Lobo Antunes, de Manuel Alegre também. Foi com espanto que verifiquei que a mesma editora é responsável pela edição do livro da alternadeira do Porto, não por ser alternadeira, cada um leva a vida como sabe e pode, mas pelo nível inexistente das declarações e atitudes com que amiúde nos tem oferecido nos canais televisivos. Ao que parece já não sabem viver sem ela. Tenho um profundo desprezo por mulheres que encontrando num homem a sua fonte de rendimento e que, uma vez seca, vêm para os meios de comunicação fazer-se de vítimas, coitadinhas e que para cúmulo ainda falam em nome dos seus filhos. Mulher alguma, que se digne do seu género, evoca o nome dos filhos nestas situações. Dir-me-ão que nada entendo de maternidade na primeira pessoa, muito provavelmente terei uma ideia mitificada do que é trazer filhos ao mundo, mas a acreditar no sublime com que algumas mulheres descrevem a condição, a maternidade deveria ser incompatível com este lavar de roupa suja mesmo nas barbas de qualquer um de nós, a bem do equílibrio e bem-estar das crianças. Com menos espanto verifiquei que o dejecto em forma de livro, assim e muito bem o classificou Miguel Sousa Tavares, ia já em quarta edição. Que há leitores para tudo nunca houve qualquer dúvida, que há editoras para tudo também já havia pouca margem de dúvida, que afinal as editoras não têm um nome a defender constitui alguma novidade. À semelhança da profissão anterior da autora do livro, a editora tem um critério óbvio, quem lhe der mais dinheiro é quem a tem. Agora digam-me que Portugal até tem coisas boas, que nos outros países também é assim e tal. Pode até ser, mas nada disso retira uma vírgula ao longo texto de idiotices de nível execrável e abjecto com que nos deparamos aqui neste Portugal cada vez mais de pequeninos de espírito.
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Now I´m here

Obrigada pelo convite. Espero não defraudar o Geração Rasca. A postagem segue dentro de minutos.
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Surrealismos: Jim Warren

Jim Warren, Birds
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Comunicado: Nova Blogger no GR

A partir de hoje a equipa do GR passa a contar com a colaboração da Leonor Barros. A Leonor é professora de Alemão e Inglês numa Escola Secundária na região de Lisboa, e já foi professora e formadora de professores na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova em Lisboa. Gosta de viajar, ler, e escrever – e já teve uma Menção Honrosa no Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca em 2004. A autora do blogue «A Curva da Estrada» afirma “fazer parte daquela ínfima percentagem de professores que não odeia Maria de Lurdes Rodrigues”.

Bem-vinda Leonor. :)
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Comunicado: Mercado de Inverno

Apesar dos bons resultados alcançados na primeira fase do campeonato, os nossos leitores mais atentos já devem ter constatado que a equipa do GR está a passar uma nova fase de “reestruturação”. Como temos alguns jogadores de saída, estamos a aproveitar a reabertura do mercado de Inverno para reforçar a nossa equipa – sempre com o intuito de a tornar mais forte e competitiva.

Os nossos olheiros continuam, como habitualmente, sempre atentos aos valores da nossa blogosfera. :)
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The End

Foi bom.
E como tudo o que é bom acabou.
Foi um prazer.
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da vida simples

A entrevista de José Mourinho ao semanário Expresso é o tipo de entrevista abundante em pertencentes.

Pertencentes a uma certa pertinência.

E a pertinência é sempre algo que me atrai, é uma espécie de jogo de gato e rato.

Na entrevista Mourinho veicula dois ou três lugares, vulgarmente, comuns:

1 - o futebol é só e apenas uma profissão, como outra qualquer...

2 - a família vem sempre em primeiro lugar

3 - a vida continua tão simples quanto antes

Quanto à primeira são algumas as afirmações de género contrafeito: afinal de tudo esta vida é uma valente chatice, nem sequer posso ir à Eurodisney com os meus filhos sem ser reconhecido, namorar com a minha mulher, num restaurante "simples" e praticar skate e correr à bola, e etc e tal.

Raramente cria ansiedades quanto ao futebol, só os batimentos cardíacos muito próprios.

O futebol anda bem longe de ser uma obsessão já que até pode convidar jornalistas para uma determinada entrevista e estar tranquila e relaxadamente a ver um bom jogo de futebol, o futebol é afinal um hobbie "simples" com o qual ganha "simplesmente" dinheiro.

O futebol é tão infinitamente pouco relevante, a importância dos adversários tão relativa e afinal a sua competência tão evidente.

Qual é a pertinência e importância de estar já a pensar na estratégia do próximo jogo quando se acaba de ganhar uma partida?

Em relação à simplicidade de José Mourinho diria que é uma simplicidade bastante simples.

Talvez uma simplicidade com alguns zeros a mais quanto aos restaurantes "simples".

Talvez um outro tipo de simplicidade relativamente simples e bastante adequada a dirigir um automóvel que afinal o conduz, muito simplesmente.

Talvez e também uma simplicidade suficientemente simples quanto ao outrora Armani e ao actual Zegna (sobretudo).

Possível e igualmente uma simplicidade fugazmente simples quanto à mensalidade dos colégios e da casa em Londres e da casa nos arredores de Londres, etc.

Provavelmente, José Mourinho tem razão!

A simplicidade de uns zeros a mais não tem absolutamente nada a ver com vidas complicadas de zeros a menos.

O chato é que as pessoas simples com vidas complicadas têm a extravagância desagradável de possuírem uma parte pouco importante da solução (simplicidade) e uma desagradavelmente importante do problema (zeros a menos logo complicação).
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domingo, dezembro 17, 2006

Blogger: promotor da língua portuguesa

Na entrevista que deu à revista «6ª», Miguel Esteves Cardoso afirma que «há blogues fabulosos. Muitíssimo bem escritos. E tens pelo menos uns trinta com um nível superior ao da nossa imprensa». Se isso interessa, estou completamente de acordo com a opinião dele e até acho que há bloggers que escrevem melhor do que certos escritores. Já descontando os «light», que, como muito bem sabemos, são como os cigarros com a mesma denominação: fazem o mesmo mal à saúde e não dão tanto prazer.

Para além disso, penso que a blogoesfera, com todas as suas vicissitudes, contribuiu não só para que surgissem novos nomes, mas também, e tão importante como isso, para que os nomes já consagrados tivessem necessidade de puxar pelos galões e acordar a prosa que andava meio adormecida neles. Exemplifico isto com um nome, [e quero que fique bem claro que é uma opinião pessoal de um leitor diário do DN há mais de uma década]: José Medeiros Ferreira.

Antes de JMF escrever em blogues, a sua prosa era mais pesada, menos irónica, com poucos golpes de asa. Afirmo isto tendo presente que estou a analisar um cronista que escreve essencialmente sobre Relações Internacionais. Como se sabe, é um tema que coarcta grandemente a criatividade na escrita, uma vez que a opinião, para ser devidamente fundamentada, tem de recorrer a grandes débitos de informação. Débitos esses que acabam por tornar o texto mais denso e menos apelativo.

Acontece que é sempre possível melhorar. E escrever em blogues, em minha opinião pessoal e bastas vezes discordante do autor citado, exige síntese (que este post não teve, enfim...), exige o jogo de palavras lapidar e exige vivacidade na concepção dos posts. Ao aplicar estas técnicas nas suas crónicas, a escrita de JMF, em minha opinião, melhorou substancialmente.

E não, não se trata de antes ter sido um cronista sisudo e agora uma "máquina de debitar soundbytes". Trata-se, apenas e tão só, de escrever a mesma crónica fazendo com mais mestria aquilo que os escritores costumam dizer que é o mais difícil fazer na escrita: dar a volta ao texto.

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Migrar com as aves

Aaron Jasinski, Migration of the Birds
acrylic on canvas
24" x 30"

Agradecimento ao Filipe Alves Moreira, que deixou de integrar a equipa do GR, e que gosta de despedidas simples.
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a vida social

confesso-vos, a noite de ontem foi demasiado social!

tão social que pelos pensamentos correm, ofegantemente, ideias extraordinárias para um post, mas recusando-se a alinhavar encadeamentos lógicos.

uma espécie de água no deserto.

a vida social e eu sempre nos demos muito bem.

o problema da vida social é que para estar de bem comigo precisa que eu esteja de bem com ela.

e sempre que estamos em perfeita sintonia surgem alguns problemas imprevidentes.

esses problemas são corriqueiros e até bastante contornáveis, o principal senão é que raramente sobrevivo inteira a uma verdadeira e autêntica noite social.

os resquícios são demasiado notórios.

cabeça para um lado e corpo para o outro, numa demonstração duvidosamente independente, principalmente para quem possui alguma ansiedade filosófica em jeito de: um ser ansiando por unicidade.

ou, ainda e também: um pensamento outrora criativo virando lugar-comum e a sua mundanidade tão superlativamente evidente.

mas, felizmente, eu e a vida social temos muita coisa em comum!
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Morder um cão

Este post era para ser sobre cães [os meus três cães], mas o Arquitecto Saraiva antecipou-se.

Como tenho uma verdadeira paixão por cães, após um breve apelo à minha memória, evoquei, com facilidade, mais de três dezenas de canídeos que dificilmente poderei esquecer. Deste universo, nem todos foram entes com os quais convivi no meu dia-a-dia. Alguns destes cachorros, cruzaram-se comigo apenas por breves momentos. Porém, inesquecíveis.

A primeira memória que tenho de um canídeo, não é a mais auspiciosa: o bicho era ranhoso, e mordeu-me o nariz. Mas, esse rafeiro manhoso não se ficou a rir: mordi-lhe uma orelha com todas as forças que tinha. Tivemos de ser separados pela dona. Aquilo acabou comigo a berrar para um lado [com um intenso ardor no nariz]; e o rafeirote a ganir e a rosnar para outro [lado].

Um par de anos mais tarde, vinha eu da escola a pé, e assustei-me com o barulho de um carro a travar bruscamente a uma escassa dezena de metros atrás de mim. Ouvi uma pancada seca, seguida de um intenso ganir. Virei-me, e vi um cachorro a rebolar para cima do passeio. Após um breve momento de inacção, comecei a correr para o animal que não parava de ganir intensamente, nem de rodopiar sobre ele próprio. Nessa movimentação desconexa, e antes que eu o conseguisse agarrar, o bicho voltou a entrar na estrada. Foi novamente atropelado [por outro carro que passava], ficando deitado no meio da estrada, inerte, mas com um ganir aflitivo. Agarrei-o pelas patas dianteiras [a única coisa que parecia intacta para além da cabeça], e arrastei-o para o passeio o mais depressa que pude. Lembro-me que comecei a chorar e a gritar por ajuda. Sentei-me no passeio, arrastei-o para o meu colo, e comecei-lhe a fazer festas na cabeça para ver se ele se acalmava e parava com aquele latir perturbador. Acabou por se acalmar, e reduzir o volume do latir para uns pequenos ganires mais espaçados. Como estava perto de casa, recordo que apareceram logo alguns vizinhos, e comerciantes da zona [caras conhecidas], que me quiseram separar do animal em agonia. Mas a forte resistência que lhes dei, obrigou-os a irem chamar os meus pais.

O que mais me marcou, nesses breves minutos a sós com o rafeiro moribundo, foi o olhar [profundamente humano] do animal, e as imensas lágrimas que lhe escorriam pelo focinho. Quando o meu pai chegou, já o animal tinha morrido.

Lembro-me de ir choroso ao colo do meu pai, olhar mais uma vez para o cachorro, e reconhecer a marca [em falta] que o rafeirote tinha na ponta da orelha.
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As coisas realmente boas

É engraçado como as coisas realmente interessantes, úteis e concretas são consideradas fora de moda, frívolas, demasiado abstractas ou mesmo chatas (sendo que o maior ou menor grau de "chatice" é o único critério com que muita gente avalia quase tudo). Falo da filosofia, da literatura, da investigação teórica em ciência, entre outras parvoeiras do género.

Mas acho também curioso e quase absurdo a forma beata e muito séria como alguns tentam impor a literatura, filosofia, &c., a todos os outros, em jeito de iluminação religiosa ou algo do género. Gostar ou não de literatura, perceber ou não de filosofia, entender ou não a importância da ciência é, acima de tudo, uma questão de liberdade.

Ainda mais curioso é a forma como os outros, os que acham "desinteressante" tudo isto, não percebem que perdem imenso e que as desvantagens são todas deles. Além disso, é pena não perceberem que a filosofia (certa filosofia, claro), por exemplo, foi uma das formas como se chegou às precárias liberdades que temos hoje. Leia-se Popper, por exemplo: está lá a liberdade, os inimigos da mesma, a ciência, a democracia, etc., etc. Mas, claro, quem gosta de filosofia, supostamente, não percebe nada do que é a vida.

Paradoxo dos paradoxos: eu, que gosto de filosofia, de literatura, de ciência, compreendo também, por causa disso mesmo, que não sou realmente melhor dos outros por causa disso. Simplesmente, a minha vida, sem isso, era outra coisa. Menos minha. Menos boa.
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sábado, dezembro 16, 2006

Wikipédia

[Voltei, depois duma semana em terras catalãs. Em breve, notícias sobre essas voltas... ]

José Pacheco Pereira volta várias vezes ao tema da Wikipédia: será que a enciclopédia livre pode ser "respeitável", ou não será um exemplo das utopias ridículas à solta na internet? Por mim, a Wikipédia é mais liberal que utópica, mas isto serão impressões sobre as coisas que nos interessam. Seja como for, é dos poucos sítios onde: (a) se pode encontrar informação sobre assuntos que nenhuma enciclopédia tradicional cobre; (b) os erros podem ser corrigidos com alguma celeridade; (c) os enviesamentos dos especialistas são corrigidos por outros especialistas enviesados, mais do que nas enciclopédias tradicionais.

Claro que a Wikipédia pode também representar um ataque ao papel dos especialistas na produção de conhecimento, o que é negativo, tendo em conta que especialistas são muitas vezes pessoas que passam anos a estudar um assunto, bem mais resguardados, portanto, das opiniões "giras" mas mal fundamentadas da maior parte de nós.

Mas fiquemos com este exemplo: um especialista inglês em nacionalismos espanhóis foi chamado pelo The Guardian a avaliar os artigos da Wikipédia sobre o País Basco. Surpresa: o especialista achou que os artigos não mostravam suficientemente bem a forma como o Estado Espanhol oprimia o Povo Basco. Ora até eu, que quero -- já! -- a independência da Catalunha, sei que a opressão no País Basco é bem mais de um certo nacionalismo basco que de Espanha. No artigo da Wikipédia, as várias opiniões estavam bem balizadas e equilibradas. O especialista queria que à sua versão fosse dada mais proeminência.

Ao contrário dos artigos da Wikipédia (que em algumas encarnações também são remediavalmente enviesados), ninguém pode discutir, alterar, melhorar a versão que o Guardian ou qualquer outra publicação tradicional publica. Este facto é bom para um certo tipo de liberdade -- a liberdade de sermos especialistas e publicarmos o resultado da nossa pesquisa; mas isto não invalida o outro tipo de liberdade, um pouco menos controlada, representada pela Wikipédia. Termos ambas é essencial para a saúde do nosso conhecimento.
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a ERC e os problemas da objectividade

O pressuposto é aceitarmos a existência da Entidade Reguladora da Comunicação (ERC).

Os dados são:

- peça jornalística de Eduardo Cintra Torres (ECT) apontando o "lápis" censor a um membro do governo, segundo o director d'O Público, alguém tentou "corrigir" alguma informação na RTP.

- a ERC responde avaliando e discordando.

- ECT escreve um texto jornalístico "objectivo" sobre a "ERC" e, uma vez mais, os fantasmas da censura.

- a ERC termina o diálogo "picaresco" com o comunicado linkado no título deste post.

Reflexões:

- a ERC é uma entidade que deverá "dedicar" alguma atenção à "objectividade" da sua comunicação, as afirmações que se lêem a partir do ponto 11, do referido comunicado, poderão ser consideradas como tal?

Nomeadamente em:

"11. Pode, no entanto, o Director do jornal "Público" ficar descansado"

e em:

"12. Registada que fica a sua enorme "coragem" e arrojo de lutador pela liberdade (demonstrados e bem expressos no editorial de 8 de Dezembro de 2006), não será necessário que alguém, quem quer que seja, passe por cima dele para "censurar" artigos de opinião."

- Ficar "descansado"? O jornalista deverá ficar descansado de quê? Poderemos "subentender" neste "descansado" uma atitude arrogante da ERC? Uma atitude de preocupação no que concerne à actividade jornalística, afinal uma profissão demasiado stressante? Ou que tipo de "descanso" deveremos esperar das comunicações da ERC em relação à classe jornalística?

- "Registada que fica a sua enorme "coragem""? Como deveremos interpretar esta "coragem"? É uma coragem corajosa? Do tipo: alguém afrontou uma entidade pública e a partir de agora será necessário algum "respeitinho" pois existe a ERC?

A ERC deveria possuir alguma formação jornalística de base, já que pretende avaliar o comportamento "escrito" da classe.

Ora se emite comunicados com alguns pontos, daquele género (a partir do ponto 11), corre o risco de cair num tipo de erro avesso ao fundamento da sua existência.

Isto é, existir com a função de limitar os excessos "emocionais" do jornalismo, mas ela própria se dar ao luxo de se "emocionar" com a "emoção" dos seus potenciais clientes.
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«Boa noite. Eu vou com as aves.»



(Imagem daqui)
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Comunicado: Luís Oliveira

O Luís Oliveira deixou de fazer parte da equipa do GR. Assumindo o meu papel de veterano desta “confraria”, agradeço ao Luís a sua participação sempre generosa e empenhada no GR, e desejando-lhe as maiores felicidades.

Podem continuar a acompanhar o Luís Oliveira no seu blogue pessoal: «Um homem à beira de um ataque de nervos»
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sexta-feira, dezembro 15, 2006

Sem moralismos (iv)

Assim são os dias que correm na opinião publicada: de um lado os moralizadores, do outro aqueles que defendem que ninguém deve dar lições a ninguém. Os primeiros julgam-se poços de virtudes e querem que os outros sejam a sua imagem e semelhança. Os segundos esquecem-se que ser amoral é cultivar uma moral também.
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Os dias de hoje

Devia ter uns 19 anos.
Cadeira de rodas.
Ambos os membros inferiores amputados.
Africano.
Ajudado por um amigo entra no comboio.
É hora de ponta.
Estranhamente todos saíram pela porta ao lado.
Quando chegou ao seu destino, ninguém o ajudou a descer.
Ele era transparente.
Praguejei, levantei-me e tentei ajudar.
Só aí é que outra pessoa (do género feminino) se levantou e nos ajudou aos dois.
A ele na sua indignação e a mim na incredibilidade do que estava a presenciar...
E cada vez mais é esta a atitude que a molhe urbana tem...
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